Estou estudando novamente um repertório que gosto muito: as Canções de Amor de Claudio Santoro e Vinicius de Moraes, que cantarei na íntegra, no Festival de Música de Campina Grande semana que vem.
São 13 canções ao todos: dois cadernos (1ª e 2ª séries) com o nome "Canções de Amor" e as Três Canções Populares, que foram editadas depois. Foram escritas entre 1957 e 1958.
Tudo começou num encontro entre Santoro e Vinícius em Paris, em 1956. O compositor mostrou ao poeta seus prelúdios para piano. Vinícius gostou das melodias e colocou letra em algumas delas. Ele gostava de trabalhar assim: ouvir a melodia e criar poesia para a música. Ao contrário da maioria das canções, que são feitas a partir da poesia, o compositor baseando-se nos versos para criar a música, as Canções de Amor são diferentes. Porque Vinícius era diferente. Com outros parceiros, de música popular, ele também preferia trabalhar assim. Aliás, acho que ele se divertia colocando letra em melodias. Isso pode ser percebido em "Rancho das Flores", que ele escreveu sobre a melodia de "Jesus meine bleibet freude" (Jesus alegria dos homens), da cantata 147 de J. S. Bach. http://letras.mus.br/vinicius-de-moraes/114917/.

A melhor gravação do ciclo (em minha opinião) é a do tenor Aldo Baldin, com
Lilian Barreto, de 1983, que foi supervisionada pelo próprio compositor.
Infelizmente está esgotada.
Tive o privilégio de ser aluna de Claudio Santoro na UnB, na década de 80, em harmonia e composição. Lembro dele com carinho. Era sempre muito simpático, andava com seu chapeuzinho. Ele já estava cansado de dar aulas, coisa que fez a vida inteira. Em sala de aula, contava histórias de sua vida, dava conselhos. E quem quisesse mostrar exercícios, ele corrigia, dava sugestões. Lembro muito de ir ao teatro assistir ensaios e concertos da orquestra regidos por ele. Cantei no coro o seu Requiem, regido por ele em 1986. Quando ele morreu, foi um choque pra mim. Lembro que chorei muito. Sobre sua morte há um fato interessante. Ele dizia que nunca se aposentaria, queria morrer trabalhando, fazendo música. E teve um infarto regendo um ensaio da orquestra. Caiu do pódio com a batuta na mão e não resistiu. É bonito e triste ao mesmo tempo. Como as canções de amor...
Fiz meu trabalho final do Curso de Especialização na UnB (2002) sobre estas canções. Foi quando cantei pela primeira vez as 13, com Vania Marize ao piano. Depois, em 2004, as fiz novamente num concerto na Escola de Música de Música de Brasília, com Gisele Pires. No Curso Internacional de Verão da EMB de 2007, participei de um concerto muito especial, com a família Santoro. Eu e André Vidal cantamos as canções com o Alessandro Santoro (filho do compositor) ao piano. E Gisele Santoro (viúva de Santoro) coreografou algumas canções e seus alunos de ballet dançaram, enquanto cantávamos. Foi muito lindo. "Jardim Noturno" foi uma das que eu cantei, junto com um lindo pas de deux. Lembro de D. Gisele na primeira fila da platéia chorando. Depois ela me abraçou longamente. Nunca vou esquecer... Talvez por este momento tão especial, Jardim Noturno é a minha preferida. O poema diz:
"Se meu amor distante
Eu sou como um jardim noturno
O meu silêncio é o seu perfume
A se exalar em vão dentro da noite
Oh volta minha amada!
A morte ronda em teu jardim as rosas tremem
E a lua nem parece mais lembrar de mim."
Quando cheguei a Campo Grande, 2009, fiz um recital com Marcus Medeiros, onde também fizemos estas canções. Esta será, portanto, a quinta vez que cantarei esta obra completa. Gosto de reestudar coisas que já cantei antes e repensar a interpretação, descobrir coisas novas...
Será um prazer cantar as Canções de Amor novamente.