Malú Mestrinho

Apresentação

Olá!
Este é meu blog pessoal.

Aqui pretendo comentar sobre coisas que vi, ouvi e vivi.
Gosto de escrever e às vezes sinto um impulso de compartilhar... Como não sei exatamento com quem, resolvi criar este espaço e deixar que pessoas acessem e leiam quando quiserem.
Pretendo também escrever e trocar idéias sobre a arte do canto. Mais especificamente do canto que interpreta a música chamada erudita.

Malú Mestrinho
(em julho/2010)


sábado, 15 de fevereiro de 2014

Pranto lavado


Nas águas de Manaíra lavei meu pranto
Pranto da ausência
Pranto doído da partida do ser amado
Olho e não o vejo
Fecho os olhos e o sei ausente
Partiu
Calmo e seguro
Como quem sabe que deve ir

As águas foram difíceis de alcançar
Minha inércia afastava-me delas
Mas quando aproximei-me devagar 
E percebi a frescura da areia molhada
Senti que poderia aliviar minha dor
Então segui e deixei que me molhassem
Primeiro os pés
Depois o corpo
Aos poucos

As primeiras ondas eram pequenas e suaves
Depois se intensificaram
Dificultando meu andar
Mas mantive o passo
Segui em frente
Com dificuldade
Como temos que seguir na vida
Quando os que amamos partem
E deixam no coração a ausência 

Nas águas de Manaíra lavei o corpo
Lavei a alma
Lavei os olhos e deles o pranto
Mas como fica impregnado na pele o seco sal
Até que seja lavado por água doce
A dor da ausência ainda fica no coração
Até que seja retirada pela doçura do reencontro

(Praia de Manaíra, João Pessoa
15 fevereiro 2014)

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Qual a sua referência vocal?

    Uma das coisas que mais influencia  a voz de uma pessoa são as referências vocais que ela ouve. Somos muito miméticos e tudo que aprendemos desde a infância é imitando, seguindo exemplos. Primeiro dos pais, familiares, depois dos professores (que responsabilidade!), amigos. E de pessoas que, por uma razão ou outra, elegemos no nosso contexto social.
    No que diz respeito à voz, isso é muito claro. Por isso, em geral, temos a voz falada muito parecida com a dos nossos pais. Quem nunca passou pela situação de atender o telefone na casa dos pais e a pessoa do outro lado achar que é sua mãe, ou seu pai falando? E, às vezes, já vai entrando no assunto, até ser interrompido: "não, aqui é o filho dele"...
   Quero comentar sobre as referências vocais para a voz cantada. Porque, assim como na fala, o timbre e as características do nosso canto são muito influenciados pelo que ouvimos.
    Sou professora de canto erudito (ou canto lírico), o estilo de canto que interpreta a música erudita, ou clássica. Na sociedade brasileira atual, esta é uma expressão musical e vocal de exceção. Não está presente no dia a dia das pessoas. Não toca normalmente no rádio e nas mídias mais comuns. 
    Por isso, de vez em quando me pergunto: qual é a referência vocal dos meus alunos? 
O que será que eles ouvem mais? Que estilo, que cantores? Pois, sei que seja lá o que for, ou quem for, está influenciando enormemente o desenvolvimento dele no seu estudo de canto. Ou, atrapalhando... Bem, não tenho como saber exatamente. Mas, tenho minhas suspeitas e elas não são boas. Pois eles estão sujeitos ao material cultural e artístico que a mídia moderna – principalmente televisão e internet – despeja diariamente diante deles. Então passo a me preocupar. Porque o que se vê neste material é o pior possível. Tanto do ponto de vista da simples saúde e higiene vocal, como do ponto de vista técnico.
   Qualquer estudante de canto que queira se desenvolver nesta área, precisa de boas referências vocais.  Precisa ouvir bons cantores eruditos, líricos e cameristas. Mais do que os da música popular, ou do gospel (credo!) e mais do que qualquer outro estilo que a mídia veicula.
   Descubro, então, que estes alunos, tem que se transformar em "garimpeiros". Porque tem que se livrar do lixo cultural (citando Ariano Suassuna), cavar, peneirar, filtrar muito para encontrar uma boa referência de canto. Eles precisam ouvir e assistir recitais e óperas. Onde eu trabalho atualmente, assistir um recital de canto é coisa rara. Poucos canais de TV a cabo tem programas de música erudita e quando passa ópera é sempre de madrugada. As melhores gravações são caras. Os estudantes não tem como comprar. Então, de onde viria esta referência? No meu tempo de estudante, havia um tráfego de empréstimos e trocas entre os colegas de fitas K7, CDs e VHS, muitas vezes copiados dos professores. Hoje temos o Youtube, que facilita muito. Mas, a variedade que está lá pode ser enganosa. Nem tudo no youtube é bom referencial. Tem que garimpar.
   O canto erudito é a modalidade vocal mais exigente no que diz respeito à técnica vocal. A colocação do som (ressonância), que resulta no timbre é um fator primordial na formação da voz. Além do ideal do legato, controle de dinâmica... É um outro mundo em termos de sonoridade. Uma ou duas aulas por semana não cria referencial suficiente. Principalmente, se em todas as outras horas da semana, o cantor ouve outro som, outras vozes. Esta concorrência é inglória, como inglorioso será o desenvolvimento da voz de quem não tratar de correr atrás deste referencial. É uma luta. E para ela, temos que nos munir de CDs, MP3, DVDs e vídeos do Youtube, de bons cantores, bons exemplos. Fazer com que ouvir canto erudito torne-se algo comum no dia a dia.

Que tipo de música você ouve?
Que cantores você ouve?
Que tipo de referência você tem para sua voz?


terça-feira, 1 de outubro de 2013

Do campo para a campina



Que diferença há entre o campo e a campina?
Ambos são grandes.
A campina nem tanto, o nome já diz
Como se fosse um campo pequeno
Mas Campina é mesmo menor, apesar do Grande no nome.
E fica acima
É mais alta
É feminina
E é mais íntima, pois pelo apelido se chama
Campina (apenas), sem o Grande
Pois muito grande não é mesmo

Já o Campo, este é Grande
Masculino e árido
Nele plantei sem muito resultado

Troco o campo pela campina
Onde há montes
"De onde me vem o socorro"

Campina é perto da serra
Portanto é alta
Como é alto o que para lá me leva
Terra de meu marido
De gente boa, então

Vou confiante
De Campina farei meu campo
Nela plantarei e ficarei
Há de ser melhor

(em 07/07/2013 voando de Campina para Campo Grande)















quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Programas e lembranças de concertos...

Na mudança, arrumando papéis, partituras... cheguei à uma caixa enorme cheia de programas de concerto. Meu Deus, quantos! Queria até contar, mas não deu, me perdi... Tinha que organizar, me desfazer de alguns. Que difícil jogar fora um programa, é como rasgar uma lembrança... Resolvi guardar pelo menos um de cada. Mas, não resisti a dar uma olhada.

Revi e revivi momentos bons. Lembrei de coisas incríveis que aconteceram, coisas maravilhosas que cantei com pianistas, cantores e maestros queridos.

Lá está minha estreia cantando a Missa da Coroação de Mozart, com o Coro Sinfônico Comunitário da UnB. Regência de David Junker, ao lado de Zuinglio Faustini, Amélia Niemeyer e Alexandre Inneco. Lembro que fiquei gripada e rouca na 3ª récita, mas não tinha quem me substituísse e o Alexandre cantou comigo a única parte que o contralto canta sozinho: "be-e-ne-di-ic-tu-us", que começa no sol grave e eu não tinha som nesta região de tão rouca!

Eu regendo o Coro Infantil da AABB, nos anos 80. Meus filhos ainda eram pequenos... A ópera Maria Tudor de C. Gomes, com a OSESP, em 1996, regência de Roberto Duarte. A Companhia de Ópera do Rio de Janeiro nos anos 90. Faziamos concertos de ópera nos lugares mais inusitados... Ariana a Naxos de J. Haydn, com Roberto Rufino, na EMB. Le Roi David de A. Honneger, com um maestro suíço (não lembro o nome) maravilhoso. O Actus Tragicus de Bach. O que me faz lembrar que uma vez o fizemos no concerto das 19h do CIVEBRA, com uma camerata antiga (cravo, gambas, flautas barrocas, em 415). E depois eu e André Vidal (dois loucos) descemos para cantar, às 21h, num concerto de musicais (!!!).

O Projeto Antologia da Canção Brasileira na EMB: 3 anos de recitais, todo o mês. E a gente correndo para aprender as canções dos compositores de cada mês. As "Enxárcias partidas" e "Alumbramentos" do Carlos Galvão. As sopranos do quarteto mudavam, mas contralto, tenor e baixo, éramos sempre eu, André Vidal e Beto Almeida. Tantas canções dele (C. Galvão) e de outros compositores que estreei. Algumas escritas pra mim. Privilégio.

Os recitais com o grupo da querida Neusa França. Os recitais do DUO ANIMA, com Rodrigo Carvalho, os da Banda Antiga da EMB, perSonare.

E tantos teatros e lugares diferentes! Em novembro de 2005 cantei em mais de 10 concertos, entre São Paulo, Brasília e Goiânia.
E há programas em que não cantei, mas preparei e orientei alunos. Quantos alunos! Formaturas no Rio, em Brasília.

Enfim, cheguei nos programas de Campo Grande: Maria Bonita, os projetos com Marcelo Fernandes. 

Há programas lindos, esteticamente bem feitos, obras de arte, dá pena jogar fora. Outros muito simples, cópias "xerox" em papel ofício, mas a música que eles contam foi feita com qualidade e cuidado.

E lá vamos nós para outros lugares, outros teatros e outros concertos, se Deus quiser. Meu marido diz brincando "não chama ela pra cantar não, que ela aceita". Que venham outros programas. Arrumarei outras caixas... Cantemos!


sábado, 7 de setembro de 2013

De uns tempos pra cá... (para Josué Jr.)

Tempo de mudança
Tempo bom
Tempo de selecionar o que vale a pena
Faz tempo que o marido canta isso pra mim.
Eu achava lindo, romântico... mas utópico e resistia.
Desta vez topei.
Só não dá pra ficar sem os livros!
Mas, vamos fazer o que a música diz. Quase...
Porque, de uns tempo pra cá, 30 anos juntos, sete mudanças e tantos recomeços, aprendemos que o que vale mesmo a pena é "ficar só com você"...


Chico Cesar e Quinteto da Paraíba, no Show "Cantos e encontros de uns tempos pra cá" 
Ibirapuera - SP, 2007

De uns tempos pra cá
(Chico César)

"De uns tempos pra cá
os móveis, a geladeira
o fogão, a enceradeira
a pia, o rodo, a pá
coisas que eu quis comprar
deu vontade de vender
e ficar só com você
isso de uns tempos pra cá

De uns tempos pra cá
o carro, a casa, o som
tv, vídeo, livros, bom...
o que em tese faz um lar
admito eu quis comprar
começo a me arrepender
pra ficar só com você
isso de uns tempos pra cá

Coisas são só coisas
servem só pra tropeçar
têm seu brilho no começo
mas se viro pelo avesso
são fardo pra carregar

De uns tempos pra cá
o pufe, a escrivaninha
sabe a mesa da cozinha?
lençóis, louça e o sofá
não precisa se alterar
pensei em me desfazer
pra ficar só com você
isso de uns tempos pra cá

De uns tempos pra cá
telefone, bicicleta
minhas saídas mais secretas
tô pensando em deixar
dê no que tiver que dar
seu amor me basta ter
pra ficar só com você
isso de uns tempos pra cá

Coisas são só coisas
servem só pra tropeçar
têm seu brilho no começo
mas se viro pelo avesso
são fardo pra carregar"