Malú Mestrinho

Apresentação

Olá!
Este é meu blog pessoal.

Aqui pretendo comentar sobre coisas que vi, ouvi e vivi.
Gosto de escrever e às vezes sinto um impulso de compartilhar... Como não sei exatamento com quem, resolvi criar este espaço e deixar que pessoas acessem e leiam quando quiserem.
Pretendo também escrever e trocar idéias sobre a arte do canto. Mais especificamente do canto que interpreta a música chamada erudita.

Malú Mestrinho
(em julho/2010)


domingo, 17 de julho de 2011

Alberto Nepomuceno, você conhece?

Recebi ontem um recado - melhor dizendo, uma tarefa a cumprir - através do facebook, que dizia: "Malu, divulgue esse trabalho, tá? O Brasil precisa conhecer o Alberto Nepomuceno." O pedido me surpreendeu e inquietou. A surpresa foi por vir de uma pessoa que eu não conhecia: Olga Gomes de Paiva (já somos "amigas" pelo facebook agora). A inquietação veio por causa da 2ª frase: "O Brasil precisa conhecer o Alberto Nepomuceno."
Alberto Nepomuceno

Fiquei incomodada porque, para mim, Alberto Nepomuceno (1864-1920) está entre os mais conhecidos compositores eruditos brasileiros. Lembro que, quando comecei a me interessar por canção brasileira, suas canções foram das primeiras a que tive acesso. 
[Uma das maiores dificuldades que o estudante de música/canto enfrenta é conseguir acesso às partituras dos nossos compositores. Queremos estudá-las, cantá-las (ou tocá-las), mas como, sem as partituras? Poucas obras foram editadas e as que foram, onde estão? O estudante tem que se bater em acervos de bibliotecas, colecionadores, professores, livrarias, sebos para descobrir uma escassa oferta. As canções de Nepomuceno, no entanto, são encontradas com relativa facilidade, principalmente depois da edição de "Canções para voz e piano", de Dante Pignatari, pela EDUSP (http://www.livrariacultura.com.br/scripts/resenha/resenha.asp?nitem=768205&sid=87232131413531464548457232)
Olga tem razão e me chamou atenção para o fato de que o resto do Brasil - como diz meu colega Marcelo Fernandes: "as pessoas que andam nas ruas" - precisa conhecer Nepomuceno e sua obra. Assim como deve conhecer  a obra de vários outros compositores. Alguns que nem nos conservatórios e escolas de música são conhecidos. Isso me incomoda e me convence do quanto é urgente e necessário o aumento da pesquisa em música erudita brasileira. Mais urgente ainda é que se faça a música erudita brasileira, que os estudantes e profissionais as estudem, interpretem, cantem e toquem. 
O trabalho ao qual se refere o recado é um documentário sobre Alberto Nepomuceno, que está disponível no youtube (links abaixo). Assisti atentamente, sorvendo cada detalhe, por ser assunto do meu mais profundo interesse. Postei no meu perfil no facebook ainda ontem, atendendo ao pedido e faço o mesmo aqui, agora. 
Obrigada Olga, pelo alerta. Parabéns pelo excelente trabalho de pesquisa e divulgação que vocês estão fazendo! Leitores do sobreCanto, assistam e conheçam um pouco mais: 

Alberto Nepomuceno - Vida, música e nacionalismo- 1ª parte:

Alberto Nepomuceno - Vida, música e nacionalismo - 2ª parte.

Alberto Nepomuceno - Vida, música e nacionalismo- 3ª parte:

 

sábado, 16 de julho de 2011

10 Filmes sobre canto

Férias
Ou recesso...
Enfim um tempinho sobrando.
Bom para ver um filme. Como o blog é sobreCanto, sugiro aqui os meus favoritos FILMES SOBRE CANTO. Adoro a sétima arte. Sempre sugiro estes aos alunos. É uma maneira de aliar diversão e aprendizado. Alguns são filmes de arte ("cults") claro... mas todos muito bons, eu garanto.

Passem numa boa locadora e bom filme!


1 - Encontro com Vênus (Meeting Venus - 1991). Com a fantástica Glenn Close, a trama se passa numa montagem de Tanhäuser, com muita intriga e uma greve no teatro. A voz da soprano é de Kiri Te Kanawa. Só isso, já é uma referência.
2 - O mestre da música (Le maître de musique -1988). Sobre um professor que prepara seus alunos para um concurso de canto. Tem o cantor Jose van Dam no papel principal.
3 - Um canto de esperança (Paradise road - 1997). De novo com Glenn Close, sobre um grupo feminino a capella, que se forma num campo de concentração.
4 - Farinelli (1994), do mesmo diretor de "O mestre da música". Conta a vida de um castrato, romanceada (diferente do que era na realidade) mas é um bom filme, com boa música barroca.
5 - E la nave va (1983), de Fellini. Um navio com cantores, leva as cinzas de uma grande diva.
6 - A Voz do Coração (Les choristes - 2004). Sobre um coro de meninos numa escola no interior da França. A música é cantada pelo "Petits Chanteurs de Saint-Marc" e o papel principal é feito por um dos solistas do próprio coro.
7 - Todas as manhãs do mundo (Tous le matin du monde - 1991). É mais sobre viola da gamba do que sobre canto (rs...) mas, na realidade é sobre música e porque fazê-la. Maravilhoso...
8 - Mudança de hábito (Syster habit - 1992). Uma comédia, que ninguém é de ferro. O "2 " do ano seguinte também é muito bom...
9 - Adeus minha concubina (1993) - apesar de ser sobre musica/ópera não ocidental, fala sobre a relação do cantor com a sua arte.
10 - Amadeus (1984) - tem muito canto, apesar de ser sobre Mozart e sua música. É ótimo para entender como eram as relações artísticas no classicismo. Mas, pelo amor de Deus, Salieri não matou Mozart, ok? ... rs


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Obs: para quem gostou desta lista, agora, em outubro de 2019), fiz uma nova lista com mais 10 filmes! Acesse e confira: Mais 10 filmes sobre canto (sobre música)


Cantemos! 

terça-feira, 21 de junho de 2011

Tupynambá

Fui apresentada nestes dias à obra de Marcello Tupynambá, ou Fernando Lobo (1889-1953).
Não que já  não conhecesse de nome ou de ouvir uma ou duas canções (descobri que tenho uma partitura dele em meu acervo). Mas, como a maioria dos brasileiros, não tinha idéia da gradiosidade de sua obra. É pura Música Brasileira, que transcende os rótulos popular ou erudito.
Quem me apresentou foi Alexandre Dias, pianista brasiliense, aluno de Neusa França e pesquisador de música brasileira. Alexandre faz um trabalho fantástico, que tenho de longe acompanhado. Primeiro foi Ernesto Nazareth, de quem ele "desenterrou" e gravou obras raras. Depois tive notícias da parceria com Wandrei Braga, no importantíssimo resgate e futura publicação (gratuita, on-line) da obra de Chiquinha Gonzaga. 
Agora, este menino me vem com Tupynambá! Me passou gravações, partituras, informações de contexto... Resultado: me apaixonei. As canções são deliciosas e de alto nível.
Posto aqui duas gravações que Alexandre fez de canções dele (ao lado delas no youtube há mais duas).
"Maricota, sai da chuva":
"Ao som da viola":
Aqui um artigo (traduzido por Alexandre) que conta um pouco da história deste músico, brasileiro, pouco conhecido, mas admirado por Darius Milhaud, Villa-Lobos, Mario de Andrade e outros: http://daniellathompson.com/Texts/Le_Boeuf/cron.tupinamba.htm
Por último, Alexandre me apresentou a outro Marcelo Tupinambá, jornalista, neto do compositor, que escreveu dissertação de mestrado sobre o avô. Material ao qual espero também, em breve, ter acesso.
Estamos planejando trabalhar juntos em breve e quem sabe, gravar, fazer um recital... 
Fica aqui a sugestão para alunos em busca de temas para TCC.
Enfiim, Tupynambá promete!

terça-feira, 19 de abril de 2011

Cantar bem em português, eis o desafio...

"... Amo-te assim, desconhecida e obscura.
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela,
E o arrolo da saudade e da ternura!

Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma, 
..."

(do poema "Lingua portuguesa", de Olavo Bilac)


Na Semana da Voz da UFMS, fizemos o recital "Canto brasileiro", no qual comentei sobre a dificuldade, que alguns cantores eruditos tem, de cantar em português. Pensar sobre isso me fez lembrar uma "historinha", que transcrevo a seguir. É fictícia, mas, com certeza algum aspecto corresponde a experiência de vários cantores:

"Canorum começou a estudar canto ainda adolescente. Começou pelos métodos tradicionais: Vaccaj, Panofka, Marchesi. E o repertório, obviamente, eram as "árias antigas italianas". Estudou várias delas e quando já estava um pouco mais adiantado, seu professor permitiu que ele passasse às canções européias: o Lied, a melodie française... Sofreu um pouco com a pronúncia do alemão e do francês, mas, nada que o ideal de ser um grande cantor, não ultrapassasse. A esta altura, já estava apaixonado pela ópera. Assistira a várias, em teatros e em vídeos. Gostava de Mozart e do Bel Canto, mas sua paixão mesmo eram as óperas românticas. Oh Verdi! Oh Puccini!... Alguns anos mais e ele já se sentia seguro com a técnica. Apareceu, então, um desafio a enfrentar: um concurso de canto. Seu professor permitiu e ele se pôs a escolher o repertório. Mas... havia uma exigência que ele não esperava: uma canção brasileira. Que coisa estranha!? E agora? Ja estudava canto há vários anos, mas nunca tinha cantado canção brasileira. Nem sabia que isso fazia parte do repertório do canto erudito! Achou no acervo de seu professor uma pasta surrada com algumas partituras de canções brasileiras. Escolheu uma bem caraterística e começou a estudar. Mas, percebeu que os fonemas da sua própria língua natal pareciam mais difíceis de encaixar na sua "bela impostação lírica" do que os fonemas alemães e franceses. Como era difícil cantar em português! As vogais brasileiras tiravam a profundidade do sua tão arduamente trabalhada e conquistada ressonância. Parecia mesmo que a técnica do canto erudito fora feita para as línguas tradicionais da ópera e não para cantar em português. Canorum, obviamente, não foi muito bem na prova do canto brasileiro."

Como evitar este impasse?...
Trabalhando canções brasileiras desde o início do estudo de canto erudito. Modinhas e canções brasileiras, nacionalistas, românticas e pós-românticas podem ser bem interpretadas e pronunciadas com uma boa impostação. Contanto que, desde o início, o estudante/cantor estude, pesquise e procure perceber e elaborar em seu instrumento-voz uma forma de se expressar bem em sua própria língua. Sem treino, sem trabalho, isso não será possível...

O universo da Canção Brasileira de Câmara é riquíssimo e maravilhoso. Esta parte da manifestação artística brasileira precisa ser mais estudada e interpretada. Deve encontrar lugar de destaque no repertório de todo o bom cantor brasileiro erudito.


Eu, particularmente, amo cantar no meu rude e doloroso idioma...





domingo, 27 de março de 2011

Prática musical ou educação musical?


    Este semestre, estou professora da disciplina "Prática de Ensino 2", no curso de música da UFMS. Somos poucos professores e por razões (justas ou não), que não vale a pena citar, "sobrou p'ra mim". A princípio, resisti. Minha área de interesse e atuação é a prática musical e o ensino dela. Gosto de dizer, com orgulho, que faço música na prática (o que muitos colegas, que abraçaram a lide acadêmica, infelizmente, deixaram de fazer). Sou professora também, por opção. Gosto de ensinar o que faço e o que conheço profundamente: voz, canto, técnica vocal, interpretação de repertório, etc. Apesar de ser licenciada, me dediquei muito mais à prática interpretativa do canto erudito. Por isso, voltar aos conteúdos de Educação Musical, foi "um parto". Mas, tudo na vida tem um lado bom e temos que aprender a encontrar a "bênção" em todas as situações... Depois de espernear" um pouco - "mãos à obra" - comecei a ler sobre o assunto, para preparar aulas. Encontrei muito material interessante, que tem me levado a refletir sobre este tema. 
    Tenho discutido com os alunos sobre a dificuldade de conciliar o interesse em ser um músico prático e a necessidade (pessoal e social) de ser professor. A maioria deles, quer "tocar".  Buscam o Curso de  Licenciatura em Música da UFMS, por ser o único curso superior de música no estado. Mas, poucos mostram interesse real na área do ensino musical. 
    Me indentifico com este conflito, porque eu mesma já passei por ele e concilio as duas coisas até hoje. Percebo que hoje me realizo ensinando, quase tanto quanto cantando. O contato com os alunos, o seu interesse, curiosidade e busca pelo conhecimento me contagiam e empolgam. Por isso, me sinto bem no ambiente universitário. Aliás, optei pelo ensino universitário, porque achei ser ideal para conciliar a prática musical (através da extensão) com o ensino. Não é tão fácil assim... mas vamos tentando.
    Quanto aos alunos, querendo ou não e compreendendo isto agora, ou não, terão de enfrentar a realidade do ensino musical. Seja na escola pública, atendendo à nova demanda criada pela lei que traz a música de volta ao ensino fundamental, ou nas escolas particulares, eles serão professores. No Brasil, poucos são os músicos que podem dedicar-se somente à performance. A maioria dá aulas, nem que seja apenas para ajudar a pagar as contas. Alguns alunos são "sonhadores" mais acirrados e dizem que não darão aulas de jeito nenhum! Só vão tocar... Acho lindo os sonhadores e torço para que eles estudem tanto e se tornem músicos tão bons, que possam realizar este sonho. Mas, torço também para que alguns deles se apaixonem pelo ensino. E que ensinar venha a ser não só o seu sonho, mas a sua realização. Sem deixar de fazer música na prática, ensinem outros a tocar e cantar. Estes serão, na minha opinião, os melhores professores de música.