Malú Mestrinho

Apresentação

Olá!
Este é meu blog pessoal.

Aqui pretendo comentar sobre coisas que vi, ouvi e vivi.
Gosto de escrever e às vezes sinto um impulso de compartilhar... Como não sei exatamento com quem, resolvi criar este espaço e deixar que pessoas acessem e leiam quando quiserem.
Pretendo também escrever e trocar idéias sobre a arte do canto. Mais especificamente do canto que interpreta a música chamada erudita.

Malú Mestrinho
(em julho/2010)


quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Sobre o professor de canto ...

[Texto inspirado pela morte de Neide Thomas.]

Construir um instrumento dentro de uma pessoa. Ensiná-la a tocar este instrumento, que é ela própria. Envolve muito mais do que técnica e muito mais do que metodologia. Envolve sensibilidade e psicologia. Tem que saber ouvir a voz, o timbre e o coração. Tem que saber escutar o aluno, seu som, sua respiração e suas angústias...
E quando ele rejeita a própria voz, saber que a rejeição não é à voz, mas a ele mesmo. Saber que ele vai precisar primeiro se aceitar, para depois aceitar a voz que tem e deixá-la fluir

Talvez haja o dia em que o aluno nem consiga cantar. E o professor pensa: "o que ele veio fazer aqui, então?" Mas tem que ouví-lo assim mesmo. Ouvir suas dúvidas, sua dor, sua revolta... A sala de aula vira então um divã. E o professor um amigo e conselheiro.
[Nas salas de canto da Escola de  Música de Brasília existem divãs, destinados aos exercícios de respiração. Sempre brincávamos que eles serviam também para a outra função mais comum...]
 A voz é ligada à alma e influenciada pelos sentimentos. Cantar é um exercício do espírito humano, não só do aparelho fonador. Por isso, cuidar só da técnica, não forma um cantor integralmente.

Professor de canto fica nervoso junto com o aluno no recital. A mãos suam, como se ele próprio fosse cantar! E sofre quando o aluno erra, desafina ou não canta tão bem quanto na sala de aula. O que acontece quase sempre. Porque a sala de aula de canto é como em casa. A ressonância fica mais fácil, por que ficamos à vontade.

Oficialmente, o professor de canto ensina técnica vocal e interpretação de repertório. Na realidade, ensina isso e... música, solfejo, pronúncia, dicção, postura, etiqueta, línguas estrangeiras, história da música, ópera, música de câmara, fonética, análise literária, tradução de texto, formação de personagem, interpretação dramática, expressão corporal, ética profissional, etc...
Além de aconselhar, consolar, ajudar, dar carona, dividir lanchinhos...

Professor de canto compartilha com o aluno momentos de busca por algo intangível. Momentos de gratificação pessoal, por realizar algo singular: expressar-se artisticamente, através de um instrumento que está dentro da pessoa. Que é ela mesma. A sua voz...

Quando Zuinglio Faustini morreu, me senti meio orfã... E eu já não tinha aulas com ele há mais de 5 anos.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Três momentos, uma canção...

O sobreCanto completa um ano, exatamente hoje. Buscando um assunto para escrever, resolvi mencionar 3  momentos que vivenciei nesta semana de formatura da turma 2011 do Curso de Música da UFMS. 3 momentos e uma canção, que me comoveram, me fizeram pensar.

 1º momento: no culto em ação de graças pela formatura, um pastor, pai de uma formanda, mencionou uma folha em branco. A nova folha do músico formal, músico formado, professor de música oficial. E o que cada formando escreveria nesta folha? Como honrar a benção que Deus deu de estudar, aprender e se formar? Trabalhando bem? Procurando melhorar a cada dia? Dividindo o conhecimento? Ensinando? Há muitas formas... E a questão serve para todos nós músicos, professores de música. Cada novo semestre (ou até cada dia) pode ser uma nova folha em branco. Um semestre se inicia agora e eu me faço esta pergunta...

Mario de Andrade e Marcus Medeiros
2º momento: o discurso do paraninfo - Prof. Marcus Medeiros - fez eco à pergunta do pastor. Ele não pode estar presente, mas suas palavras lá estavam, representando seu carinho e cuidado com seus (agora já ex) alunos. Citando "A oração do paraninfo" de Mario de Andrade, desafiou cada formando a tomar seu lugar na sociedade, fazendo da música um instrumento de mudança. Andrade ansiava pela "oficialização do ensino musical" no Brasil e agora ela existe. Será que isso fará diferença? Hoje, procurei o texto de Andrade para ler e uma frase poética chamou-me a atenção:   
 "Há sempre uma aurora para qualquer noite,
E essa aurora sois vós.
E pois que a noite ainda é profunda e vai em meio,
Eu vos convido a forçar a entrada da manhã."

 
3º momento: antes da formatura, estive no Festival de Música de Três Lagoas/MS (excelente iniciativa e trabalho da prefeitura). É estarrecedor como o povo no interior deste estado é carente da boa música. A maioria só tem acesso à sub-música, massiva, comercial, tão simples que nada acrescenta. Percebi na reação das pessoas o quanto o pouco contato que tiveram - uma oficina, um concerto - foi significante. E o quanto gostariam de ter mais... Campo Grande tem pouca tradição de música formal e o curso de música da UFMS se ressente disso. Sempre criticamos a falta de estrutura e lamentamos ser apenas uma licenciatura e não haver o bacharelado. Mas, no interior a carência é tão maior! O fato de este ser o único curso superior de música do estado dá a nós - professores, alunos e egressos - uma enorme responsabilidade...



A canção: ao final da cerimônia de colação de grau os formandos surpreenderam fazendo música! E o melhor: cantando. Melhor ainda: cantaram a capela! Fizeram de suas vozes instrumentos e cantaram uma canção, cuja poesia diz muito sobre nós músicos. Que feliz idéia, fazer da turma um coro e como foi lindo... Não sei se cada formando percebeu a força destas palavras que dizem que nossa profissão vive de casar os momentos às canções. Hoje no sobreCanto, caso esta canção aos 3 momentos. Na essência, eles têm muito em comum...

Há canções e há momentos
Eu não sei como explicar
Em que a voz é um instrumento
Que eu não posso controlar
Ela vai ao infinito
Ela amarra todos nós
E é um só sentimento
Na platéia e na voz

Há canções e há momentos
Em que a voz vem da raiz
Eu não sei se quando triste
Ou se quando sou feliz
Eu só sei que há momentos
Que se casa com canção
De fazer tal casamento
Vive a minha profissão
(Canções e Momentos, de Milton Nascimento e Fernando Brant)
 

domingo, 17 de julho de 2011

Alberto Nepomuceno, você conhece?

Recebi ontem um recado - melhor dizendo, uma tarefa a cumprir - através do facebook, que dizia: "Malu, divulgue esse trabalho, tá? O Brasil precisa conhecer o Alberto Nepomuceno." O pedido me surpreendeu e inquietou. A surpresa foi por vir de uma pessoa que eu não conhecia: Olga Gomes de Paiva (já somos "amigas" pelo facebook agora). A inquietação veio por causa da 2ª frase: "O Brasil precisa conhecer o Alberto Nepomuceno."
Alberto Nepomuceno

Fiquei incomodada porque, para mim, Alberto Nepomuceno (1864-1920) está entre os mais conhecidos compositores eruditos brasileiros. Lembro que, quando comecei a me interessar por canção brasileira, suas canções foram das primeiras a que tive acesso. 
[Uma das maiores dificuldades que o estudante de música/canto enfrenta é conseguir acesso às partituras dos nossos compositores. Queremos estudá-las, cantá-las (ou tocá-las), mas como, sem as partituras? Poucas obras foram editadas e as que foram, onde estão? O estudante tem que se bater em acervos de bibliotecas, colecionadores, professores, livrarias, sebos para descobrir uma escassa oferta. As canções de Nepomuceno, no entanto, são encontradas com relativa facilidade, principalmente depois da edição de "Canções para voz e piano", de Dante Pignatari, pela EDUSP (http://www.livrariacultura.com.br/scripts/resenha/resenha.asp?nitem=768205&sid=87232131413531464548457232)
Olga tem razão e me chamou atenção para o fato de que o resto do Brasil - como diz meu colega Marcelo Fernandes: "as pessoas que andam nas ruas" - precisa conhecer Nepomuceno e sua obra. Assim como deve conhecer  a obra de vários outros compositores. Alguns que nem nos conservatórios e escolas de música são conhecidos. Isso me incomoda e me convence do quanto é urgente e necessário o aumento da pesquisa em música erudita brasileira. Mais urgente ainda é que se faça a música erudita brasileira, que os estudantes e profissionais as estudem, interpretem, cantem e toquem. 
O trabalho ao qual se refere o recado é um documentário sobre Alberto Nepomuceno, que está disponível no youtube (links abaixo). Assisti atentamente, sorvendo cada detalhe, por ser assunto do meu mais profundo interesse. Postei no meu perfil no facebook ainda ontem, atendendo ao pedido e faço o mesmo aqui, agora. 
Obrigada Olga, pelo alerta. Parabéns pelo excelente trabalho de pesquisa e divulgação que vocês estão fazendo! Leitores do sobreCanto, assistam e conheçam um pouco mais: 

Alberto Nepomuceno - Vida, música e nacionalismo- 1ª parte:

Alberto Nepomuceno - Vida, música e nacionalismo - 2ª parte.

Alberto Nepomuceno - Vida, música e nacionalismo- 3ª parte:

 

sábado, 16 de julho de 2011

10 Filmes sobre canto

Férias
Ou recesso...
Enfim um tempinho sobrando.
Bom para ver um filme. Como o blog é sobreCanto, sugiro aqui os meus favoritos FILMES SOBRE CANTO. Adoro a sétima arte. Sempre sugiro estes aos alunos. É uma maneira de aliar diversão e aprendizado. Alguns são filmes de arte ("cults") claro... mas todos muito bons, eu garanto.

Passem numa boa locadora e bom filme!


1 - Encontro com Vênus (Meeting Venus - 1991). Com a fantástica Glenn Close, a trama se passa numa montagem de Tanhäuser, com muita intriga e uma greve no teatro. A voz da soprano é de Kiri Te Kanawa. Só isso, já é uma referência.
2 - O mestre da música (Le maître de musique -1988). Sobre um professor que prepara seus alunos para um concurso de canto. Tem o cantor Jose van Dam no papel principal.
3 - Um canto de esperança (Paradise road - 1997). De novo com Glenn Close, sobre um grupo feminino a capella, que se forma num campo de concentração.
4 - Farinelli (1994), do mesmo diretor de "O mestre da música". Conta a vida de um castrato, romanceada (diferente do que era na realidade) mas é um bom filme, com boa música barroca.
5 - E la nave va (1983), de Fellini. Um navio com cantores, leva as cinzas de uma grande diva.
6 - A Voz do Coração (Les choristes - 2004). Sobre um coro de meninos numa escola no interior da França. A música é cantada pelo "Petits Chanteurs de Saint-Marc" e o papel principal é feito por um dos solistas do próprio coro.
7 - Todas as manhãs do mundo (Tous le matin du monde - 1991). É mais sobre viola da gamba do que sobre canto (rs...) mas, na realidade é sobre música e porque fazê-la. Maravilhoso...
8 - Mudança de hábito (Syster habit - 1992). Uma comédia, que ninguém é de ferro. O "2 " do ano seguinte também é muito bom...
9 - Adeus minha concubina (1993) - apesar de ser sobre musica/ópera não ocidental, fala sobre a relação do cantor com a sua arte.
10 - Amadeus (1984) - tem muito canto, apesar de ser sobre Mozart e sua música. É ótimo para entender como eram as relações artísticas no classicismo. Mas, pelo amor de Deus, Salieri não matou Mozart, ok? ... rs


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Obs: para quem gostou desta lista, agora, em outubro de 2019), fiz uma nova lista com mais 10 filmes! Acesse e confira: Mais 10 filmes sobre canto (sobre música)


Cantemos! 

terça-feira, 21 de junho de 2011

Tupynambá

Fui apresentada nestes dias à obra de Marcello Tupynambá, ou Fernando Lobo (1889-1953).
Não que já  não conhecesse de nome ou de ouvir uma ou duas canções (descobri que tenho uma partitura dele em meu acervo). Mas, como a maioria dos brasileiros, não tinha idéia da gradiosidade de sua obra. É pura Música Brasileira, que transcende os rótulos popular ou erudito.
Quem me apresentou foi Alexandre Dias, pianista brasiliense, aluno de Neusa França e pesquisador de música brasileira. Alexandre faz um trabalho fantástico, que tenho de longe acompanhado. Primeiro foi Ernesto Nazareth, de quem ele "desenterrou" e gravou obras raras. Depois tive notícias da parceria com Wandrei Braga, no importantíssimo resgate e futura publicação (gratuita, on-line) da obra de Chiquinha Gonzaga. 
Agora, este menino me vem com Tupynambá! Me passou gravações, partituras, informações de contexto... Resultado: me apaixonei. As canções são deliciosas e de alto nível.
Posto aqui duas gravações que Alexandre fez de canções dele (ao lado delas no youtube há mais duas).
"Maricota, sai da chuva":
"Ao som da viola":
Aqui um artigo (traduzido por Alexandre) que conta um pouco da história deste músico, brasileiro, pouco conhecido, mas admirado por Darius Milhaud, Villa-Lobos, Mario de Andrade e outros: http://daniellathompson.com/Texts/Le_Boeuf/cron.tupinamba.htm
Por último, Alexandre me apresentou a outro Marcelo Tupinambá, jornalista, neto do compositor, que escreveu dissertação de mestrado sobre o avô. Material ao qual espero também, em breve, ter acesso.
Estamos planejando trabalhar juntos em breve e quem sabe, gravar, fazer um recital... 
Fica aqui a sugestão para alunos em busca de temas para TCC.
Enfiim, Tupynambá promete!