Malú Mestrinho

Apresentação

Olá!
Este é meu blog pessoal.

Aqui pretendo comentar sobre coisas que vi, ouvi e vivi.
Gosto de escrever e às vezes sinto um impulso de compartilhar... Como não sei exatamento com quem, resolvi criar este espaço e deixar que pessoas acessem e leiam quando quiserem.
Pretendo também escrever e trocar idéias sobre a arte do canto. Mais especificamente do canto que interpreta a música chamada erudita.

Malú Mestrinho
(em julho/2010)


segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Workshop CANTO BARROCO

O projeto de extensão Oficina de Ópera da UFMS realiza o Workshop Canto Barroco, de 14 a 16 de novembro, no Curso de Música da UFMS (unidade 08 do campus de Campo Grande). O evento conta com os professores:
André Vidal - cantor especializado em interpretação de música antiga (renascença e barroco) pela Royal Academy de Londres

Deyvison Miranda - um dos mais prestigiados correpetidores do Brasil

Eles ministrarão master classes e apresentarão recital de canto e piano voltado para o repertório barroco.

Os alunos do projeto Oficina de Ópera da UFMS participarão do recital de alunos, interpretando árias e duetos da ópera "La Serva Padrona", de G. B. Pergolesi.

Público alvo:  cantores e estudantes de canto erudito; pianistas e estudantes de piano interessados em correpetição; estudantes de música em geral.


Modalidades de participação:

- Participante: para quem deseja cantar/tocar nas master classes, recebendo orientação dos professores convidados (investimento R$ 25,00). Vagas limitadas.


- Ouvintes: para apenas assistir às masterclasses e recitais (investimento R$ 15,00).

PROGRAMAÇÃO:


14/11
15/11
16/11
14h
Recepção/Inscrições
14h – 18h
Master class de canto
Prof. André Vidal
14h – 18h
Master class de correpetição
Prof. Deyvison Miranda
15h – 18h
Master class de canto  Prof. André vidal
20h
Recital - André Vidal  & Deyvison Miranda
19h
Recital – árias e duetos de “La serva padrona” de Pergolesi











PARTICIPE!!!       DIVULGUE!!!

Mais informações e inscrições: oficinadeoperaufms@gmail.com

domingo, 9 de outubro de 2011

Sobre violão...




Marcelo Fernandes e Rodrigo Carvalho, meus amigos violonistas
Perguntaram-me esta semana porque no meu status do gmail está escrito: "Eu amo violão erudito". Resolvi publicar a explicação aqui. Há poucos dias percebi o quanto a sonoridade do violão acústico, tocando música erudita é significativa para mim. Em meio há tanta poluição sonora e "ruídos musicais", o som do violão é como um bálsamo para meus ouvidos. Isto ficou claro na seguinte experiência:

Dirigindo, estava ouvindo um CD no carro, mas tudo soava "barulhento"! Sons amplificados, bateria, teclado imitando cordas (ECA!!!) nada agradava... (às vezes, meu ouvido fica mais chato e crítico do que o normal...). Mudava de faixa e não gostava de nada. Então, mudei o CD e a 1ª coisa que tocou no outro foi o prelúdio nº 1 de Villa-Lobos, para violão solo. Eu não esperava, pois era o um CD de canções! Foi como se tudo se transformasse à minha volta. O sol se abriu por detrás das nuvens, a angústia se foi. Meu coração se acalmou, o trânsito melhorou. Ouvir aquilo me fez lembrar que a vida vale a pena, que a boa música salva tudo. Há esperança. O som do violão acústico bem tocado, a música do Villa... que bênção!

 
Prelúdio nº 1, de Villa-Lobos, por Turíbio Santos (na falta de registro dos meus violonistas preferidos).


Tenho o privilégio de conviver e trabalhar com excelentes violonistas. É um prazer ouví-los tocar e cantar com eles. É engraçado que sempre sonhei em ter um trabalho de duo com um pianista e nunca (22 anos de carreira) consegui um que durasse mais que 2 anos. Talvez, porque tenha me mudado muito... Com violão, sem querer tanto, consegui isso. Rodrigo Carvalho (UFG) formou comigo o DUO ANIMA há 7 anos. Fazer música com uma pessoa por tanto tempo redunda num nível de entrosamento, que só a convivência e muito ensaio trazem. Fizemos um recital juntos domingo passado a pudemos perceber isso. Muito bom...
Tenho trabalhado também com Marcelo Fernandes, colega no Curso de Música da UFMS. Convivemos há bem menos tempo, mas os projetos em que participamos juntos já tem produzido resultados muito positivos.

Aprendi a cantar com o violão, a moldar a voz para esta sonoridade leve e rica ao mesmo tempo. Aliás, acho que aprendi, porque sei que canto diferente com o violão (de vez em quando eles ainda reclamam que meu instrumento soa muito forte...). O violão me ensina a medir, moderar, equalisar e trabalhar timbres. Lições importantes para uma cantora...

Recomendo a todos ouvir mais violão erudito. Faz bem para os ouvidos e para a alma.

[No blog Violão Erudito pode-se baixar a obra completa de Villa-Lobos para o instrumento. ]

Amplexos musicais!

sábado, 24 de setembro de 2011

Sobre cantar...

DUO ANIMA set/2011
É bom cantar
É minha atividade preferida
É quase uma necessidade
É meu ofício e meu vício

Estudo canto. Gosto de estudar. Estudo sobre o fenômeno da voz cantada, a arte do canto e a técnica do cantar. Mas o que mais gosto é estudar canções, peças novas, ler partituras... Sinto falta, quando não tenho o que estudar para cantar! Quase enlouqueço quando (como semana passada) a voz falha. Rouquidão para o cantor é quase uma prisão. Esta semana estou feliz porque a voz voltou. E semana que vem, vou cantar uma canção nova: "Surdina" de Larena Araújo, poema de Cecília Meireles. Lindo poema, linda canção... Palco. Lugar de concretização profissional do cantar.

Ouço vozes. Ouço todo o dia pessoas cantando. Gosto de ouvir gente cantar. E quanto ouço, não consigo ouvir despretenciosamente. Tenho que prestar atenção. A voz humana me interessa, me chama a atenção, me encanta. Às vezes, me incomoda. Ouço timbres, ressonâncias, percebo nuances...
Hoje ouvi numa rádio online a ópera Faust de C. Gounod. Vozes lindas, música transcendente... Gosto de ouvir cantores bons. E gosto de ouvir meus alunos cantando.

Ensino a cantar. Gosto muito de ensinar canto. É bom ver os alunos se tornando cantores, desenvolvendo sua voz como um instrumento, aprendendo a dominá-la e usá-la melhor. Aprendo com eles. Ensinando, aprendo  a cantar melhor.

E sigo cantando, ouvindo cantos e ensinando a cantar. É meu trabalho. E não é fácil (por mais que alguns pensem que é...). Mas envolve uma boa parcela de gratificação pessoal.
Agradeço a Deus o privilégio de trabalhar com o que gosto!
É muito bom cantar...

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Sobre o professor de canto ...

[Texto inspirado pela morte de Neide Thomas.]

Construir um instrumento dentro de uma pessoa. Ensiná-la a tocar este instrumento, que é ela própria. Envolve muito mais do que técnica e muito mais do que metodologia. Envolve sensibilidade e psicologia. Tem que saber ouvir a voz, o timbre e o coração. Tem que saber escutar o aluno, seu som, sua respiração e suas angústias...
E quando ele rejeita a própria voz, saber que a rejeição não é à voz, mas a ele mesmo. Saber que ele vai precisar primeiro se aceitar, para depois aceitar a voz que tem e deixá-la fluir

Talvez haja o dia em que o aluno nem consiga cantar. E o professor pensa: "o que ele veio fazer aqui, então?" Mas tem que ouví-lo assim mesmo. Ouvir suas dúvidas, sua dor, sua revolta... A sala de aula vira então um divã. E o professor um amigo e conselheiro.
[Nas salas de canto da Escola de  Música de Brasília existem divãs, destinados aos exercícios de respiração. Sempre brincávamos que eles serviam também para a outra função mais comum...]
 A voz é ligada à alma e influenciada pelos sentimentos. Cantar é um exercício do espírito humano, não só do aparelho fonador. Por isso, cuidar só da técnica, não forma um cantor integralmente.

Professor de canto fica nervoso junto com o aluno no recital. A mãos suam, como se ele próprio fosse cantar! E sofre quando o aluno erra, desafina ou não canta tão bem quanto na sala de aula. O que acontece quase sempre. Porque a sala de aula de canto é como em casa. A ressonância fica mais fácil, por que ficamos à vontade.

Oficialmente, o professor de canto ensina técnica vocal e interpretação de repertório. Na realidade, ensina isso e... música, solfejo, pronúncia, dicção, postura, etiqueta, línguas estrangeiras, história da música, ópera, música de câmara, fonética, análise literária, tradução de texto, formação de personagem, interpretação dramática, expressão corporal, ética profissional, etc...
Além de aconselhar, consolar, ajudar, dar carona, dividir lanchinhos...

Professor de canto compartilha com o aluno momentos de busca por algo intangível. Momentos de gratificação pessoal, por realizar algo singular: expressar-se artisticamente, através de um instrumento que está dentro da pessoa. Que é ela mesma. A sua voz...

Quando Zuinglio Faustini morreu, me senti meio orfã... E eu já não tinha aulas com ele há mais de 5 anos.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Três momentos, uma canção...

O sobreCanto completa um ano, exatamente hoje. Buscando um assunto para escrever, resolvi mencionar 3  momentos que vivenciei nesta semana de formatura da turma 2011 do Curso de Música da UFMS. 3 momentos e uma canção, que me comoveram, me fizeram pensar.

 1º momento: no culto em ação de graças pela formatura, um pastor, pai de uma formanda, mencionou uma folha em branco. A nova folha do músico formal, músico formado, professor de música oficial. E o que cada formando escreveria nesta folha? Como honrar a benção que Deus deu de estudar, aprender e se formar? Trabalhando bem? Procurando melhorar a cada dia? Dividindo o conhecimento? Ensinando? Há muitas formas... E a questão serve para todos nós músicos, professores de música. Cada novo semestre (ou até cada dia) pode ser uma nova folha em branco. Um semestre se inicia agora e eu me faço esta pergunta...

Mario de Andrade e Marcus Medeiros
2º momento: o discurso do paraninfo - Prof. Marcus Medeiros - fez eco à pergunta do pastor. Ele não pode estar presente, mas suas palavras lá estavam, representando seu carinho e cuidado com seus (agora já ex) alunos. Citando "A oração do paraninfo" de Mario de Andrade, desafiou cada formando a tomar seu lugar na sociedade, fazendo da música um instrumento de mudança. Andrade ansiava pela "oficialização do ensino musical" no Brasil e agora ela existe. Será que isso fará diferença? Hoje, procurei o texto de Andrade para ler e uma frase poética chamou-me a atenção:   
 "Há sempre uma aurora para qualquer noite,
E essa aurora sois vós.
E pois que a noite ainda é profunda e vai em meio,
Eu vos convido a forçar a entrada da manhã."

 
3º momento: antes da formatura, estive no Festival de Música de Três Lagoas/MS (excelente iniciativa e trabalho da prefeitura). É estarrecedor como o povo no interior deste estado é carente da boa música. A maioria só tem acesso à sub-música, massiva, comercial, tão simples que nada acrescenta. Percebi na reação das pessoas o quanto o pouco contato que tiveram - uma oficina, um concerto - foi significante. E o quanto gostariam de ter mais... Campo Grande tem pouca tradição de música formal e o curso de música da UFMS se ressente disso. Sempre criticamos a falta de estrutura e lamentamos ser apenas uma licenciatura e não haver o bacharelado. Mas, no interior a carência é tão maior! O fato de este ser o único curso superior de música do estado dá a nós - professores, alunos e egressos - uma enorme responsabilidade...



A canção: ao final da cerimônia de colação de grau os formandos surpreenderam fazendo música! E o melhor: cantando. Melhor ainda: cantaram a capela! Fizeram de suas vozes instrumentos e cantaram uma canção, cuja poesia diz muito sobre nós músicos. Que feliz idéia, fazer da turma um coro e como foi lindo... Não sei se cada formando percebeu a força destas palavras que dizem que nossa profissão vive de casar os momentos às canções. Hoje no sobreCanto, caso esta canção aos 3 momentos. Na essência, eles têm muito em comum...

Há canções e há momentos
Eu não sei como explicar
Em que a voz é um instrumento
Que eu não posso controlar
Ela vai ao infinito
Ela amarra todos nós
E é um só sentimento
Na platéia e na voz

Há canções e há momentos
Em que a voz vem da raiz
Eu não sei se quando triste
Ou se quando sou feliz
Eu só sei que há momentos
Que se casa com canção
De fazer tal casamento
Vive a minha profissão
(Canções e Momentos, de Milton Nascimento e Fernando Brant)