Malú Mestrinho

Apresentação

Olá!
Este é meu blog pessoal.

Aqui pretendo comentar sobre coisas que vi, ouvi e vivi.
Gosto de escrever e às vezes sinto um impulso de compartilhar... Como não sei exatamento com quem, resolvi criar este espaço e deixar que pessoas acessem e leiam quando quiserem.
Pretendo também escrever e trocar idéias sobre a arte do canto. Mais especificamente do canto que interpreta a música chamada erudita.

Malú Mestrinho
(em julho/2010)


sexta-feira, 6 de dezembro de 2024

Dona Laura e o Salmo 121

        Sempre que viajo, lembro do Salmo 121, que decorei desde pequena. Na família Mestrinho, temos a tradição de recitar este Salmo inteiro sempre que se vai viajar. Lembro de fazermos isso na saída da casa do vô Mestrinho, em Curitiba. Passávamos sempre os fins de ano lá e no dia da volta, antes de sair, perto da porta, o vovô orava e recitávamos juntos este Salmo. Lembro bem da voz firme da Vó Noquita dizendo: "Elevo os meus olhos para os montes, de onde me virá o socorro? O meu socorro vem do Senhor que fez o céu e a terra...". São seis versículos que falam do cuidado de Deus o tempo todo, em todo lugar, na saída e na chegada. 

        Mas, quero escrever sobre outra memória relativa a este salmo: uma música cuja melodia sempre me vem à mente, quando viajo de carro. Eu a aprendi com D. Laura Granja, uma amiga querida da família, que já está no céu, com o Senhor que nos guarda. Dona Laura era organista da Igreja Memorial Batista de Brasília. Nos anos 80, eu estudava piano seriamente e passei a tocar nos cultos da IMBB, acompanhando o Coro Memorial. Ela era minha veterana neste ministério e tinha todo um sistema, que ela me ensinou, incluindo as introduções e "descansos" (pequeno trecho que se tocava antes da última estrofe) dos hinos congregacionais. Naquela época, só se usava o Cantor Cristão e o hinário dela já tinha tudo isso marcado. Ela organizava tudo, escolhia durante a semana os prelúdios, interlúdios, todos os "lúdios" que houvesse. E tínhamos que ensaiar durante a semana estes duos que o piano fazia junto com o órgão. Se fosse outro organista, só se combinava as músicas e "dava-se uma passada" antes. Mas, com D. Laura, tinha que ensaiar, por causa do zelo que ela tinha com este trabalho. Ela já trazia para o ensaio as cópias das músicas pra mim. Eu cheguei a ter uma pasta com as partituras de D. Laura, que tinham as iniciais LG. Uma destas músicas era este Salmo 121, que tocamos alguma vezes. Eu nem gostava muito da música. Existem outras músicas com a letra deste Salmo, que aprecio mais. No entanto, por uma razão muito especial, eu decorei este hino e o canto em minhas viagens. 

        Em 1983, meus pais se mudaram para Rondonópolis - MT, e D. Laura queria visitar minha mãe lá, unindo o interesse de conhecer aquela região. Combinamos e fomos juntas de ônibus, visitá-los. D. Laura era muito alegre e amava música. Fomos na ida e na volta conversando, rindo e cantando hinos. Na estrada de Brasília até lá, o relevo do horizonte vai mudando aos poucos. O planalto vai ficando pra trás e de repente começam a aparecer pequenas montanhas. D. Laura atenta à paisagem que a janela do ônibus mostrava, comentava sobre o gado, as plantações, a soja. E quando as montanhas apareceram ela começou a cantar: 

"Para os montes olharei
Donde me vem salvação
Meu socorro vem de Deus
O Senhor da criação.
 
O Senhor é quem me guarda,
Guardará de todo o mal
Minha entrada e saída
Desde agora e até o final"

        Aprendi a poesia ali com ela, cantamos juntas e memorizei a canção. A viagem toda foi ótima, mas lembro de poucos detalhes dela. Este momento e a música ficaram em minha mente. Hoje em dia, não viajo mais de ônibus, mas gosto de viajar de carro e de dirigir na estrada. Em minhas viagens, seja onde for, quando aparece uma montanha, esta melodia me vem à mente e eu a canto.

        Encontrei uma gravação razoável do hino que D. Laura me ensinou. Não se compara com a forma espontânea de se cantar a capela, viajando... mas, serve para conhecer a música. 

        
        Por último, deixo aqui a íntegra do Salmo 121. Ele me abençoa sempre.

"Elevo os olhos para os montes: de onde me virá o socorro?
O meu socorro vem do Senhor, que fez o céu e a terra.
Ele não permitirá que os teus pés vacilem; não dormitará aquele que te guarda.
É certo que não dormita, nem dorme o guarda de Israel.
O Senhor é quem te guarda; o Senhor é a tua sombra à tua direita.
De dia não te molestará o sol, nem de noite, a lua.
O Senhor te guardará de todo mal; guardará a tua alma.
O Senhor guardará a tua saída e a tua entrada, desde agora e para sempre."
(Salmos 121) 


        Transeamus.

quarta-feira, 11 de setembro de 2024

Confidências, Ernesto Nazareth e Neusa França

      Neusa França foi atraída para a música e para o piano através da apreciação musical. Tinha apenas 4 anos e parava para ouvir sua tia Zizinha, que era também sua madrinha, tocar piano. A menina gostava de ouví-la tocar. Ela mesma narrou isso em entrevista a Dib Franciss, em 2005. Neusa menciona a valsa "Confidências" de Ernesto Nazareth. Ela conta que sua tia tocava muito bem Nazareth e que ouvia a tia tocar esta valsa: 

        -- "Lembro-me tanto dela tocando Confidências, nunca me esqueci." 

        Ela gostava tanto de ouvir a tia tocar, que pedia para repetir: 

         -- "Toca de novo, Tia Zizi! toca de novo! Outra vez..." 

     Fico imaginando que tipo de criança era Neusa França, que aos 4 anos de idade se sentava para ouvir um adulto tocar "Confidências". Claro que os tempos eram outros. Antes da Televisão, internet, video-game, etc. Mas, a inquietude da criança era a mesma... 

       Aqui em casa, se começo a tocar qualquer coisa, as crianças não dão a mínima atenção. Meu piano fica de "fundo musical" para as brincadeiras e bagunças  Acho mesmo, que Neusa França era especial. Deus a fez moldada para amar e viver música desde sempre, desde pequena. Por isso, ela transpirou música durante toda a sua vida e disseminou esta boa influência por onde passava. Visão romântica? Pode ser. Assumo que estou numa fase de Neusofilia aguda. Aliás, faço parte, com orguho, do grupo "Neusófilos para sempre" formado por alunos e amigos de Neusa França. Alguns que fazem parte deste grupo a conhecem melhor do que eu, conviveram mais com ela do que eu. Mas, tem sido rica a troca de lembranças e informações, especialmente agora, que estou escrevendo uma tese de Doutorado sobre as canções de câmara dela.

        Chamou-me a atenção o fato de ela lembrar especificamente a valsa "Confidências". Fui ouví-la e é mesmo linda... singela. É até simples, comparada com outras peças de Nazareth. Mas, ela tem uma profundidade, uma melancolia, que torna difícil ouvir sem se emocionar. Consegui a partitura de "Confidências" e estou aprendendo a tocá-la. As duas primeiras partes são mais fáceis, já consigo tocar. Mas, a terceira parte ainda preciso estudar mais. 

       A própria Neusa se tornou uma exímia intérprete de Ernesto Nazareth, sempre tocando obras dele em seus recitais e indicando-as a seus alunos. Em 1977, fez um recital em homenagem a ele, na Sala Funarte, em Brasília. Ela abre o recital com "Recordando Nazareth", composição dela, que homenageia o compositor. Ela toca quatro peças dele sozinha ao piano e o restante do programa com a flautista Odete Ernest Dias e um regional de choro. 
  Aqui, o link deste recital no Youtube: https://youtu.be/naOUEHI4cZs?si=fikeXb03wlfHYmrL. Infelizmente a gravação tem ruídos. Mas, mesmo assim, é fantástico. Ainda estou me acostumando com a Neusa França chorona, pois a conheci como uma pianista erudita e não conhecia este seu outro lado. É incrível a facilidade que ela tinha de migrar do repertório erudito para o choro. E ela tinha uma ginga impressionante! Esta ligação com o choro e com música popular brasileira se reflete em suas canções. Em Neusa França, tudo está ligado, o piano, o choro, as canções... são partes de um todo, que formam o seu rico universo musical. 

      A melodia de "Confidências" tem embalado meu trabalho na tese. Gosto de ouvir interpretações deferentes dela. E de vez em quando, sento ao piano para tocar... No link abaixo, pode-se ouvir a interpretação de Neusa França, tocando "Confidências".  

           https://youtu.be/9IcgKHOFzP8?si=LwukHphBuiJoIncr&t=164

         E por último, deixo aqui o vídeo da maravilhosa Neusa França, tocando o seu delicioso  "Recordando Nazareth" em seu recital na Casa Thomas Jefferson, em abril de 2007.  



       

         Viva Neusa França!

        Viva Ernesto Nazareth!





quarta-feira, 10 de maio de 2023

Uma surpresa na pesquisa sobre as canções de Neusa França...

    Estou editorando uma nova canção de Neusa França. Nova, no sentido de que, na lista das canções a editorar, dentro do trabalho de pesquisa, terminei uma e começo esta agora. Mas, não é nova para mim, pessoalmente. Pois, já a conhecia. Eu a cantei com a Neusa ao piano, em 2006. Chama-se “Balada para a Mulher”, com poesia de Nazareth Tunholi, amiga de Neusa, a quem conheci, nesta época. Elas duas faziam parte da ALMUB (Academia de Letras e Música do Brasil). 
            Estou atualmente, também – porque faço várias coisas ao mesmo tempo na pesquisa, não tenho muito método (ou, num olhar condescendente, este pode ser considerado o meu método,,,) – selecionando as canções de Neusa França, que cantarei em recital. Preciso fazer isso agora, para aproveitar o contato presencial com Angelo Fernandes, meu co-orientador no Doutorado, que tocará comigo. Ele é maestro, excelente pianista, professor de canto e estou em Campinas, trabalhando com ele, numa rara oportunidade de ensaiarmos, já que moro em Brasília. No processo de seleção para o recital, minha primeira reação foi deixar "Balada para a mulher" de fora. São cerca de 30 canções, das quais cantarei apenas 10, e esta não é das minhas preferidas.
            Aconteceu, então, que os dois processos se uniram, num momento que me emocionou. 
Para iniciar a editoração, abri todos os arquivos que tenho da canção: a minha partitura física (uma cópia xerox do original, que me foi dada pela compositora há 17 anos), e as duas partituras digitais da canção, que se encontram no acervo de Neusa França, cedidas para a pesquisa pelo Instituto Piano Brasileiro. Assim que olhei para a partitura, eu lembrei da canção. Num misto de solfejo e exercício de memória, cantarolei a melodia. Abri o arquivo digital da partitura original, com a parte de piano junto com a do canto. Logo depois, abri o arquivo da partitura para o canto (ela costumava escrever a parte do canto separada, em outra partitura). Sempre observo atentamente os detalhes de cada partitura, pois, Neusa França anotava informações, que são preciosas para a pesquisa. E na capa da partitura para voz, encontrei algo que me impactou profundamente: 

(Para a grande cantora Malú Mestrinho apresentar em 1ª audição na homenagem a novos membros da ALMUB na data de 28/7/06 no Auditório da UNB.)

Esta é a caligrafia de Neusa França, que já acho bonita normalmente. Mas, lendo nela a referência a mim e o meu nome, tive uma sensação de deslumbramento. Na minha partitura, que é cópia do original com o piano, não há nada disso. Não peguei com ela esta linha separada do canto, que era para mim. Tanto que ficou no acervo dela. Eu sempre preferi ler a minha parte junto com a do piano. Então, foi realmente uma surpresa! Me veio um sentimento quente, de perceber/lembrar que ela gostava de mim. Lágrimas vieram junto. Estou só, no meio da madrugada, ninguém para compartilhar a descoberta. Só Deus, a quem sou sempre grata pelo privilégio de trabalhar com a obra de Neusa França. Por isso, escrevo aqui. 
Sim, fui eu quem fez a primeira audição desta canção, na ocasião que ela menciona na anotação. A data da primeira audição é dado técnico importante, que eu não tinha sobre esta canção. Lembrei de tudo, do dia, da cerimônia, da canção. E a poesia tem tudo a ver com esta mulher artista, a quem estou aprendendo a dar o devido reconhecimento. 
Neusa França foi uma artista muito especial. Enquanto esteve aqui, encantou a muitos com sua música. Foi especial para mim pessoalmente, que pude trabalhar e cantar com ela. Ela é especial hoje, num momento diferente, de uma forma diferente. A descoberta da sua anotação sobre mim me leva a tratar esta pesquisa ainda com mais carinho. 
“Balada para a mulher” acaba de entrar na lista do repertório do meu recital de Doutorado. 

            Cantemos! 

domingo, 23 de abril de 2023

Neusa França... e a pesquisa sobre suas canções.


Pianista
Concertista
Virtuose
Compositora
Poetisa
Professora
Escritora
Educadora musical
Promotora Cultural



        Ela foi tudo isso, mas meu foco agora é no compositora, porque estou pesquisando sobre suas canções e é importante lembrar que ela compôs muito mais do que o Hino Oficial de Brasília, pelo qual é mais lembrada. 
      Conheci Neusa França na época do Projeto Antologia da Canção Brasileira, da Escola de Música de Brasília. Não que eu não soubesse quem ela era, e não a tivesse assistido tocar nos concertos da Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional, que, nós alunos de Música da UnB, nos anos 80/90, sempre assistíamos. Mas, não a conhecia pessoalmente e quem nos apresentou foi Marco Aurélio Coutinho. Estávamos preparando um recital só com canções de compositores brasilienses e ele disse: "Você tem que colocar a D. Neusa França nisso aí! ela tem várias canções". A soprano Amelia Niemeyer, colega na EMB, já cantava algumas canções de Neusa França, que foi uma convidada especial naquele recital, tocando com ela suas próprias canções. A partir daí, me tornei  também uma das cantoras que tiveram o privilégio de cantar suas canções com ela tocando. Convivi com ela entre 2003 e 2009. Lembro que ela tocava com energia e alegria que contagiavam a gente. Ela gostava de contar histórias... eu lembro de algumas e, graças ao mundo digital, há outras contadas por ela nos registros dos concertos "Vamos ouvir música?" e outros eventos, no Youtube. Participei dos seus “Vamos ouvir música?” entre 2004 e 2008, sempre cantando uma canção dela e de outro compositor brasileiro. Ficamos amigas, e ela costumava me chamar para cantar em eventos como saraus, festas, e sessões das academias que ela fazia parte. Cantei a 1ª audição de três canções dela nesta época: "Valsa do Primeiro Beijo" (na versão canção), "Teimoso" (versão canção) e "Balada para a mulher". Convivi com ela e seus alunos em sua casa, presenciei o seu trabalho e a facilidade com que escrevia uma partitura. 
        Por causa do meu interesse na Canção de Câmara Brasileira, recebi dela várias partituras manuscritas de suas canções, que continuei cantando em recitais e incentivando alunos a estudar. Depois que ela faleceu, em 2016, percebi que tinha um tesouro nas mãos: cerca de 20 partituras de canções dela, sendo a maioria cópia, mas há alguns autógrafos. Fiquei com muita vontade de voltar a trabalhar com aquelas partituras, editorá-las, gravá-las. 
        Enfim, chegou este momento. Estou trabalhando desde 2022, no Doutorado em Música da Unicamp, com uma pesquisa sobre as "Canções de Câmara de Neusa França". Na pesquisa, que foi contemplada com uma bolsa do CNPq, no projeto "A Canção Brasileira de Concerto: estudos de repertório", já levantei mais de 30 canções dela e estou descobrindo informações e editorando suas partituras. Em breve, se Deus quiser, vou cantá-las em recital, gravá-las e publicar as partituras.  
        Foi um privilégio conviver e cantar com Neusa França.
        É um privilégio hoje, pesquisar sobre suas canções. 

        Transeamus 

        Cantemos
    

quinta-feira, 12 de janeiro de 2023

Cantando na pandemia

            * (Texto antigo, que estava rascunhado para revisar há mais de um ano).

        2020, pandemia... tempo difícil. Difícil para trabalhar, para viver, e para cantar. Foi um ano de reclusão, sai muito pouco. Fazia tudo pela internet, inclusive o meu trabalho. Gente morrendo, gente sofrendo, gente chorando... E aquele medo! Sozinha no apartamento, falava muito com Deus... clamava por conforto para aqueles que perdiam seus entes queridos. Em meio a tudo isso, Deus me deu uma tarefa: cantar para consolar as pessoas. Resisti, não queria... Mas, não tive como fugir. O navio para Tarsis encalhou na pandemia...
        Uma amiga de Campina Grande me escreveu em maio/2020, pedindo que eu gravasse uma canção para os amigos de lá, que gostavam de me ouvir, estavam com saudades... Mas, gravar o que? Como, aqui sozinha? Tanta música já gravada! Eles podiam acessar músicas que gostam nos streamings. Não precisava eu gravar... e não gravei. De vez em quando, me lembrava do pedido. Quando orava por alguém sofrendo, pensava se podia fazer mais do que orar. Ouvi uma mensagem de um pastor sobre "Consolai meu povo" (Isaias 40:1)... Deus me ensinava sobre consolo. Várias vezes, trechos bíblicos e mensagens que falavam sobre consolo apareceram para mim. Mas, fiquei quieta. Em julho, outra amiga, de Uberlândia, perdeu a mãezinha dela. Me escreveu lembrando de um hino que eu cantava, quando morei lá, que falava da soberania de Deus: "Ele é meu e teu Senhor". Respondi rápido, "eu canto pra você!", querendo consolar a amiga que sofria. Pensei em gravar um áudio de WhatsApp e mandar pra ela. Mas, quando fui gravar o hino pra ela, lembrei do outro pedido de maio! Se ia gravar, tinha que atender o pedido anterior... Escolhi o hino "Deus cuidará de ti", para lembrar que Deus cuida de nós, mesmo na dor. Não foi fácil. Não tenho o costume de tocar e cantar ao mesmo tempo, então, tive que treinar muito! Quis gravar em vídeo, porque tudo naquele momento era por vídeo... Várias horas de preparo, para criar um arranjo, decorar a letra. Ensaiei muito. Gravar foi outro parto! Gravei no celular, sem fone (não sabia usar). Tentei várias vezes, mas errava ora o piano, ora o canto. Até que um take saiu razoável e resolvi mandar. Mas, não sabia como fazer! O arquivo era pesado. Meu filho sugeriu colocar no Youtube. Coloquei e mandei só para ela e algumas pessoas da família. Só que as pessoas queriam compartilhar o vídeo, que não era público, reclamaram. Tornei o vídeo público. Pessoas escreviam agradecendo, dizendo que tinham sido abençoadas, Na semana seguinte gravei o hino da amiga mineira. Já com fone de ouvido e um pouco mais segura. 
Sentada no piano, testando uma das gravações. 
        E assim surgiu um projeto pessoal de gravar canções de consolo. Queria gravar uma por semana. Mas, o processo era tão difícil para mim, que não consegui... de agosto de 2020 a março de 2021, gravei 8 vídeos, mais ou menos um por mês. Criei uma playlist no meu canal do Youtube, que teve vários acessos e pelos comentários, percebo que ela cumpriu seu objetivo, graças a Deus. Fiquei feliz de, num trabalho de formiguinha, ter alcançado algumas pessoas com uma mensagem de consolo através da música e do canto. Quem me conhece como cantora lírica, vai perceber que é outro tipo de canto, outra voz... 

        Hoje olhando para trás, não consigo imaginar como fiz isso. Se for tentar tocar e cantar aquelas canções hoje, não consigo... Mas, sei que fiz. Fui um pouco rebelde no início, mas fiz o que Deus me convocou a fazer. 
  Aqui o link da playlist "Cantando na pandemia" com as canções gravadas: https://youtube.com/playlist?list=PLD7jwFGJbWL-LvV2NliYrLVcCOtOkTX_M

Cantemos! 




sábado, 7 de janeiro de 2023

Voltando aos textos...


           Olá sobreCanto, estou de volta.
        Mais de um ano depois, acho que, finalmente, achei um tempinho para escrever. Muita coisa aconteceu. Mas, acho que o principal motivo da ausência aqui no blog seja o Doutorado. Pois é, finalmente... meio tarde, mas no tempo certo de Deus, estou fazendo um Doutorado, no Instituto de Artes da Unicamp. 
Eu e a minha nova "escola"...
Eu e minha nova escola... 

  Estou envolvida com o doutorado em música da Unicamp desde o 2º semestre de 2021, quando fiz duas disciplinas, como aluna especial. Minha amiga Isabela Sekeff foi quem me falou da possibilidade de cursar disciplinas por vídeo (ainda estávamos na pandemia). O contato com o estudo e pesquisa em assuntos tão dentro dos meus interesses profissionais e acadêmicos me levou a fazer o processo seletivo. Fui aprovada com um projeto de pesquisa sobre as Canções de Câmara de Neusa França, compositora que tive o privilégio de conhecer, conviver e cantar com. Estou muito feliz de realizar esta pesquisa, sob orientação de dois excelentes professores: Paulo Kühl e Angelo Fernandes. 
      Mergulhei de cabeça no trabalho da pesquisa em 2022. Estou licenciada do meu trabalho na UnB para fazer a pesquisa. Fiz um curso de FINALE, levantei os manuscritos das canções (34!), que estou editorando. Descobri muita coisa sobre elas e ainda estou levantando e anotando informações. Depois, vou escrever um texto separado aqui sobre as canções de Neusa França. 
      Minha pesquisa foi contemplada com uma bolsa do CNPq, específica para pesquisas sobre "A canção brasileira de concerto: estudos de repertório" no PPG do IA/Unicamp. Benção de Deus pra mim. Traz mais responsabilidade também de produzir e dar relatório da produção. 
      Em 2023, farei a última disciplina que falta e vou fazer o estágio de docência, lá na Unicamp, presencialmente. Terei que morar 4 meses em Barão Geraldo. Algo inesperado... mas, estou animada. 
       É isso. Novos tempos, novas experiências. Graças a Deus! Gosto do texto em que Deus diz:  "Não vos lembreis das coisas passadas, nem considereis as antigas. Eis que faço coisa nova, que está saindo à luz; porventura, não o percebeis? Eis que porei um caminho no deserto e rios, no ermo." (Isaías 43: 18 e 19) E eu digo "Ok, Senhor, eis-me aqui." 
Bem vindo, 2023! 
Bora trabalhar!
Transeamus... 
Cantemos. 



sexta-feira, 3 de dezembro de 2021

O tomateiro da minha varanda

 

    Era uma vez um tomatinho cereja que sobrou de uma muda magrinha que eu plantei na jardineira da minha varanda. O tomateirinho secou, morreu... já tinha arrancado o caulezinho seco com raiz e tudo. Chegamos a colher alguns tomatinhos dele, e os comemos. Mas, um caiu e ficou lá esquecido, até o dia que fui plantar umas sementinhas de outras coisas com o meu neto Gabriel. Ele estava mais interessado nas sementes de morango, do que nas de salsinha e rúcula.

    Encontrei o tomatinho caído, abri no meio com a tesoura e coloquei as duas metadinhas viradas de cabeça pra baixo, num espaço da terra onde tinha colocado um pouco de adubo, entre as sementes de rúcula e as de morango. Com o indicador de cada mão, empurrei na terra assim: tchum, tchum, uma metade do lado da outra e cobri com terra. Não entendo nada de plantas e nunca tive muito jeito com elas. Mas desde que cheguei nesta casa que Deus me deu pra morar, onde há uma jardineira na varanda lateral do quarto de dormir, tenho experimentado algo novo: plantar. Pois bem, esta foi uma experiência: coloquei as duas metades do tomatinho na terra, pensando: vamos ver no que vai dar... 

    Fiquei acompanhando nos próximos dias o resultado do morango, pra ver se nascia. O Gabriel, de vez em quando perguntava pelo morango, curioso sobre quando apareceriam a frutinhas. Daí, apareceu um brotinho. “Olha Gabriel, está nascendo o morango!” Nem lembrava do tomate. A rúcula também nasceu, deu folhas bonitas. A salsinha, coitada, foi confundida com mato e jogada fora. Aliás, tudo nasce igual: duas folhinhas, uma pra cada lado. A gente tem que esperar crescer pra ver o que é... aprendizados de jardineira de primeira viagem. O pretenso morango crescia forte e rápido, duas plantinhas já... Pois bem, comecei a desconfiar daquele morango. Crescia que era uma beleza! Mas as folhas não pareciam nada nada com as das fotos da internet. Um dia, fotografei as folhas já abundantes num caule que engrossava e perguntei ao google o que era aquilo: TOMATE!!! Ha ha ha... nada de morango! Era primavera e as duas plantas cresceram muito e, em poucos dias, se encheram de flores amarelinhas. Aprendi que tinha que cortar uns galhos “xupões”, para as flores darem frutos. Todo dia tirava alguns... E as frutinhas apareceram. MUITAS! Tenho hoje 2 tomateiros ENORMES e fortes, na jardineira da varanda, cheios de tomatinhos! Mais de oitenta hoje! Tenho que podar as pontas dos galhos, para ele parar de crescer! Tanto vigor nesta planta, que onde eu tirei os chupões, nasceram outros ramos, alguns já deram flores. Ele já venceu a rúcula, que hoje está mirradinha... bichinha!

Tomatinhos nascidos na minha varanda.
    Em breve teremos muitos tomates cereja para salada!

   Existem várias orientações sobre como ´preparar sementes de tomate para plantar: retirar e lavar para sair da polpa, depois secar por vários dias. Não fiz nada disso. Lembro de uma frase do filme Jurassic Park “life finds a way...” É verdade. Porque acima da natureza e dentro dela há a força suprema da vida: Deus. Eu vejo isso no tomateiro da minha varanda. 

Aleluia!

Transeamus... 

sexta-feira, 3 de setembro de 2021

Canto Brasileiro

  


    Iniciei um projeto de extensão no MUS (Departamento de Música da UnB), o Canto Brasileiro, programa de rádio web e podcast. Falando assim, parece até engraçado, porque rádio é mídia antiga. Mas, na verdade, tanto radio web (rádio na internet), como podcast são formatos atuais, que as pessoas podem acessar de seus smartphones ou tablets. E neste tempo de pandemia, quando somos bomboardeados pelos vídeos, o acesso a um conteúdo só de áudio, parece ser mais leve. 
    O Canto Brasileiro nasceu de um convite que recebi de Rogério Resende, da Casa do Piano (http://casadopiano.com.br/), para ocupar um espaço na programação da radio web, que ele estava criando. Ele sugeriu um programa sobre canto e eu decidi focar na Canção de Câmara Brasileira (*), por ser a minha área de maior interesse no repertório do canto. Percebendo que seria algo que demandaria tempo e trabalho, resolvi fazer isso através de um projeto de extensão, envolvendo a minha classe de estudantes de canto na UnB. Deu mais certo do que eu pensava!     
    Alguns estudantes entraram no projeto meio desconfiados, sem entender muito no que estavam se envolvendo. Mas, agora, eu os vejo trabalhando lindamente e satisfeitos. Me ajudam nos contatos, na produção do programa, edição dos áudios, divulgação e locução. E o melhor de tudo: estão aprendendo muito sobre Canção de Câmara Brasileira, conhecendo mais do repertório, dos compositores e tendo contato com intérpretes e pesquisadores da área.
    Sem entender muito, das mídias e seus formatos, busquei ajuda de outro projeto de extensão do MUS, o Musicoide (http://musicoide.unb.br/), uma plataforma de podcast, que nos acolheu, e disponibiliza nossos episódios em sua própria plataforma e em outras, como o Spotify e o google podcast. Assim, as pessoas podem acessar e ouvir o programa quando quiserem. 
    Os programas são temáticos, abordam obras para canto de compositores brasileiros e  trabalhos de intérpretes, como CDs e gravações de trabalhos acadêmicos. Às vezes, fazemos entrevistas e outras vezes só tocamos as canções. Mas, sempre com pequenos comentários, que ajudam a compreender o universo da Canção de Câmara Brasileira. 
    O objetivo do projeto é divulgar a Canção de Câmara Brasileira, principalmente obras de compositores menos publicados e menos cantados. Por exemplo, fizemos um programa com canções de Marcello Tupynambá (1889-1953), que tem canções de grande valor artístico, mas pouco conhecidas, até mesmo entre cantores brasileiros. O repertório da Canção de Câmara Brasileira é imenso e riquíssimo, merece ser mais difundido. Além disso, o público em geral dificilmente tem acesso a ele. Encontramos tanto material, que já esgotamos as datas que temos até o fim do ano. Sobraram compositores e gravações que só serão abordados se mantivermos o projeto em 2022. O que me parece bem provável, porque o programa "pegou". Recebi vários retornos de colegas que ouviram, de pessoas que gostaram. É muito gratificante perceber o interesse e satisfação de quem ouve. Bom saber que, em qualquer lugar do mundo, pessoas podem ouvir o programa, tanto na primeira apresentação, domingo à noite, como nas reprises da rádio, e pelo podcast, em qualquer horário que quiser.
    Se você está lendo este texto e não conhece o projeto ainda, está convidado a acessar um dos canais do programa, como segue: 

🎵O programa Canto Brasileiro estreia sempre no domingo, às 21h. É reprisado na 2ª feira seguinte, no mesmo horário, aqui: http://casadopiano.com.br/wp/radio/ , (em outros dias da semana, alguns episódios são reprisados, sempre às 21h). 
🎵Os programas ficam  disponíveis em formato de podcast, na plataforma do Musicoide: http://musicoide.unb.br/canto brasileiro .
🎵 O projeto tem uma página no Instagram, que você pode seguir, para nos apoiar e ficar por dentro dos próximos programas: https://www.instagram.com/canto_brasileiro/ .

    Como sempre privilegiei a canção brasileira em meu trabalho, este projeto veio como algo natural para mim. Mas, não esperava que tivesse uma receptividade tão boa. Tem sido gratificante ver o desenvolvimento do projeto e como ele desperta interesse no próprio meio dos cantores. Espero que o Canto Brasileiro continue por muito tempo, divulgando este universo imenso e tão importante da canção de arte Brasileira. Considero um privilégio realizar este trabalho. 

Cantemos! 

__________________________

    (*) Explicando: Canção de Câmara Brasileira ou Canção de Arte Brasileira é a canção brasileira escrita em partitura, por compositores eruditos (que estudaram música formalmente). Por isso, ela é interpretada pelos cantores eruditos, usando a técnica do canto lírico. Ela tem alguns elementos em comum com a canção popular brasileira. Tanto que algumas já foram gravadas por cantores populares. A identidade BRASILEIRA extrapola os estilos e pessoas que não conhecem música erudita, podem gostar de uma canção de câmara e se identificar com ela. A canção de câmara e a canção popular são criações musicais brasileiras. Quem gosta de Pixinguinha, Tom Jobim, Chico Buarque e Djavan, provavelmente vai gostar também de Villa-Lobos, Camargo Guarnieri e Edmundo Villani-Cortez. 



terça-feira, 13 de julho de 2021

A casa da Colina

Já passei pelo Campo

Pela Campina

Agora moro na Colina

Estou aqui há pouco tempo

Mas, parece que estou há muito

De tão à vontade que estou

Como se sempre fosse este o meu lugar

E é. Lugar que Deus me deu pra morar

Não é meu. Mas, é, de certo modo. Afinal, o que é nosso aqui?

As vezes, ao contrário, parece que ainda não me acostumei...

Com o espaço

O silêncio 

O verde

A vista

Os pássaros

A feira

A fórmica

As varandas

A jardineira

Vou aos poucos arrumando

Colocando do meu jeito

Processo que vai ser longo

E do qual não quero me cansar. 

Pendurar coisas na parede 

Arrumar cantinhos

Mudar aquela prateleira...

Casa nova é bom demais.

Obrigada, meu Deus, pela casa da colina. 

Só quero sair daqui para aquela morada, que Jesus disse que ia arrumar pra mim. 


terça-feira, 3 de novembro de 2020

Dez anos de sobreCanto

     


  O sobreCanto completou 10 anos!... E eu nem percebi. Minha filha, Hadassa, que me ajudou a criá-lo, foi que me chamou a atenção para isso, quando lia o último texto publicado.
       Dez anos escrevendo, compartilhando experiências e reflexões sobre a arte de cantar e sobre a vida. Escrever para mim é terapêutico, me faz bem. Escrever é uma forma de perpetuar momentos. A palavra escrita permanece. Muito mais a escrita virtual. Se fosse um diário em papel, poderia se perder, queimar, algo assim... e menos pessoas teriam acesso.
       Escrevi o primeiro texto em 29 de julho de 2010. Eu morava em Campo Grande - MS e acho que a motivação principal era escrever para os meus alunos da época, abordando assuntos relacionados com o aprendizado do canto. Mas, também queria criar um canal de expressão. O texto introdutório do blog fala do impulso que tenho de escrever e compartilhar.
       O plano de um texto por mês ficou longe de ser alcançado. 2011 foi o único ano com 12 textos publicados (mais ou menos, um por mês). Já, em 2018 não há texto algum. Na verdade, passei mais de dois ano sem escrever (entre maio de 2017 e agosto de 2019). Talvez, um bloqueio criativo causado pelo abalo emocional da viuvez...
        O blogger nos dá algumas estatísticas: 
👉 58 textos publicados. Fiquei satisfeita de perceber que 43 dos 58 são realmente sobre canto. Sinal que não traí a ideia original do blog.
👉 170 comentários. Como as minhas respostas também são contadas, na verdade são, mais ou menos, a metade disso.
👉  O texto mais lido foi Sobre cantores de igreja, campeão com mais de 2000 acessos. 
Depois vem o 10 filmes sobre canto com quase 1000 acessos. Até fiz uma continuação deste artigo, o Mais 10 filmes sobre canto (sobre música)
       Os textos tem formatos variados. Há relatos de trabalhos artísticos que realizei, reflexões pessoais, algumas tentativas poéticas, um conto. Há também as listas de filmes e, no tempo em que estava no facebook, usei o sobreCanto para divulgar eventos. 
       Meus filhos brincam comigo, me chamando de "blogueira"... rs. Com certeza, não sou... dedico pouco tempo escrevendo e, por estar fora de redes sociais, hoje em dia, divulgo bem pouco as publicações. 
       O sobreCanto registrou momentos significativos, que o tempo colocaria no esquecimento. Por terem ficado registrados, posso reler, relembrar e quem os viveu comigo também. Quem não viveu, mas ler, vivencia também, de uma outra forma.
       Gostei de olhar para estes 10 anos e ver uma trajetória de cantos e encantos que Deus me permitiu viver e escrever. 

        Transeamus


quinta-feira, 15 de outubro de 2020

No dia do professor... a história de um aluno.

       Conheci Eduardo no 2º semestre de 2009, em Campo Grande - MS.  Ele estava iniciando o Curso de Licenciatura em Música da UFMS, e eu, recém chegada, como professora de canto da instituição. De início, foi logo me dizendo que não gostava de música erudita, queria cantar música popular. Eu não permiti. O concurso que eu havia feito era na área de canto erudito e só trabalharia com o repertório da minha área de formação. Ele, como vários outros alunos, resistiu a princípio, tanto ao repertório como à técnica. Era muito desconfiado... Um dia mandei ele deitar no chão da sala, para perceber a musculatura abdominal. "Professora, o que que vão pensar, se alguém entrar aqui e me ver deitado?..." E assim, foram vários embates, até ganhar sua confiança. Percebi que era afinado, e tinha um "vozeirão", mas o apoio era "zero", muito trabalho pela frente, para a musculatura sustentar aquela voz toda. Mas, ao contrário de outros, Eduardo era assíduo e interessado. Perguntava muito sobre tudo, queria entender as coisas. Suas aulas acabavam sendo pequenas para as dúvidas que ele tinha... e combinei que ele anotasse as dúvidas e perguntasse por e-mail. Tenho dezenas de e-mails com perguntas do Eduardo...

       Além de aluno de canto, ele foi meu aluno na disciplina Técnica e Expressão Vocal, na qual montaríamos um "musical". Eu precisava de solistas e coloquei os alunos de canto "no fogo". Assim, logo no primeiro semestre, Eduardo se tornou meu solista na montagem de "O pássaro da terra" de João J. de Paes Loureiro, com canções de Waldemar Henrique. Ele foi o Caçador, personagem masculino principal. O musical foi um sucesso e a partir dali, ele percebeu que podia cantar. 

      Eduardo tinha potencial, e por trabalhar comigo vários dias na semana, nas aulas de canto e nos ensaios do musical, mas sobretudo por seu interesse, ele começou a se destacar. Os semestres se passaram e ele foi se desenvolvendo cada vez mais como cantor.

       Em janeiro de 2011, levei-o para o 33º Curso de Verão da Escola de Música de Brasília, no qual fui  professora. Este evento fez muita diferença, naquele momento, criando um referencial mais alto do que o que ele tinha antes. Eu o percebi deslumbrado em cantar num bom coro, com um repertório difícil, assistir concertos de alto nível e conviver com outros jovens estudantes, que já tocavam ou cantavam muito bem, porque estudavam muito. Voltou de lá com mais vontade de aprender e, como eu já previa, apaixonado pela música erudita. Lembro de ele me perguntar se eu achava que ele teria chance de se tornar mesmo um cantor. "Se você estudar bastante, tem toda a condição." Foi o que ele fez. Eduardo foi meu bolsista em todos os projetos que fiz na UFMS e não foram poucos... Culminando com a ópera "Dido & Eneas", na qual, ele interpretou Eneas. 

       Orientei o TCC e o recital de formatura de Eduardo no Curso de Licenciatura da UFMS, em julho de 2013. Em seguida, eu saí da UFMS, fui embora de Campo Grande e ele se sentiu meio "orfão". Me escrevia choroso, meio perdido, sem saber o que fazer. Eu o incentivei a ir para Goiânia fazer o Bacharelado em Canto da UFG, onde eu sabia que teria bons professores. Um tanto inseguro, ele seguiu meu conselho e foi. Passou por momentos difíceis, longe da família, mas resistiu e prosseguiu. De vez em quando, nos falávamos por e-mail, ou WhatsApp, eu na Paraíba, ele em Goiânia. Contava-me o que estava cantando, o que o professor lhe dizia. Sempre me mandava vídeos dos recitais que participava. 

       O tempo passou e voltei pra Brasília. Eduardo se formou, agora Bacharel em Canto. Em 2018, ele veio a Brasília com o Coro Sinfônico de Goiás, fazer uma Nona Sinfonia. Nos encontramos e ele me deu um DVD do seu recital de formatura. Eduardo é um cantor profissional, tenor concursado do Coro Sinfônico de Goiás. É um solista, que canta muito bem, além de lecionar canto numa escola técnica em Goiânia. 

       Sim, existe um mercado de trabalho para o cantor erudito. Sim, é possível, alguém que não teve um "berço do ouro" na música, alcançar este mercado. Olhando pra trás, tenho uma sensação gostosa de dever cumprido. Incentivei um rapaz simples, com algum potencial e muita curiosidade a estudar e vencer no mundo da música. Eu sempre gosto de ser amiga dos meus alunos, nem sempre consigo. Eduardo foi um aluno que me aceitou como amiga. Até hoje, conversamos, trocamos ideias e opiniões, agora, como colegas. Ele ainda tem um longo caminho pela frente. Que Deus abençoe Eduardo e o guie nas escolhas em sua carreira. 


Eduardo Machado, interpretando "De' miei bollenti spiriti", ária da ópera "La traviata", de G. Verdi. 


Valeu, Edu! 

Cantemos... 

quinta-feira, 23 de julho de 2020

Dois textos pandêmicos


TEMPOS

No início, era a dúvida...
A incompreensão.
Como assim parar por causa de um vírus?
Não era lá da China, do frio?
Disseram que não chegaria aqui, que é quente.

Depois, veio o choque...
Decreto fecha tudo.
Quarentena...
Fique em casa! 

E então, veio a letargia.
Não tem mais academia
Não tem mais aula
Não saio mais... 
Nem pra fazer compras.
E sem motivação, 
Fiquei lerda, parada, 
Desanimada.

Agora, vem o medo...
Abrir? Tem certeza?
Tanta gente morrendo!
Como vamos viver?

Cadê o novo normal que não chega?
Ou já chegou e nem percebi?
Máscara, álcool, isolamento... é isso?
Até quando?

Enfim, o que virá no futuro...
Se só Deus sabe,
Melhor ficar perto dELE.



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GLOSSÁRIO


PANDEMIA
COROA
QUARENTENA
Fique em CASA
ISOLAMENTO
DELIVERY
NADA de abraços
SOLIDÃO
MÁSCARAS -  qual que serve?
ÀLCOOL gel - 70
HOME office
Governo NEGA
ÁTILA assusta
MORTE - muitas
REMÉDIO nenhum
NETFLIX - refúgio
Sem PÂNICO  
SEM trabalho
ABRE ou NÃO abre?
Incerteza X FÉ


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transeamus 



segunda-feira, 29 de junho de 2020

Reflexões do minhocão vazio


Instituto Central de Ciências-UnB/Foto: Mariana Costa
   Minhocão vazio... ver esta foto me impactou. 
   Olhar pra ela me fez refletir sobre o momento que estamos vivendo. É um símbolo deste tempo de pandemia e isolamento social. 
Neste lugar transitavam estudantes, pesquisadores e professores, na busca e cultivo do conhecimento, ciência, cultura e arte. Vê-lo vazio é um choque. 
   Pra quem não conhece, este é o Instituto Central de Ciências, prédio central do campus Darcy Ribeiro, da Universidade de Brasilia. É um espaço histórico da UnB. O campus cresceu muito e, hoje, tem muitos outros prédios, alguns até mais imponentes. Mas o ICC, ou minhocão, como costumamos chamar, é central, como o nome já diz, tanto do ponto de vista físico, como de identidade.
   Eu trabalho neste campus. O MUS, departamento que habito não funciona no minhocão, mas é bem perto dele. É comum passar por lá, encontrar alguém... buscar ou fazer um lanche. É caminho pro prédio da reitoria. 
   O minhocão me traz outras lembranças, foi palco da minha formação. Eu fui estudante da UnB. E tudo começa lá, principalmente, para a área de humanas. O departamento de letras fica lá. Fiz um ano de letras, antes de migrar pra música. Os ensaios do Coral da UnB eram lá, no anf. 09 (um dos muitos anfiteatros do minhocão, adaptado para apresentações artísticas). Andávamos da ala sul até o final da ala norte, depois do ensaio, para almoçar no "Natural", restaurante que ficava no subsolo. Depois, já como aluna de música, fui bolsista do Coro Sinfônico Comunitário, que também ensaiava no anf. 09. Recentemente, voltei ao anf. 09 para apresentações de Canto Coral. Agora, como professora.
   Nos primeiros dias da pandemia, quando o semestre foi suspenso, ficamos sem saber como reagir. Muitos dias de expectativa. Será que vai passar? Será que vamos voltar? Quando? A situação nos causou um tipo de "paralisia". O "fique em casa" nos colocou numa letargia estranha. Lembro que cheguei a sentir alivio, por não precisar fazer o trajeto diário de onde moro até o campus. Depois de algum tempo, este alívio se foi e não ir ao campus começou a incomodar. 
   O corpo docente manteve-se em contato. Reuniões por vídeo-conferência. Mantive contato com os alunos também, tentando estimular o estudo. Ou, às vezes, só conversando mesmo, trocando idéias e expectativas em comum. "Continuem estudando!", sempre escrevo. Músico não pode parar de estudar... Só que, sem ter o que ensaiar, como ensaiar, e sem ter aulas, estudar pra que? Tem que ter uma disciplina pessoal muito grande, para se manter ativo. A música, por ser eminentemente prática, tem características difíceis de serem adaptadas para atividades à distância e por vídeo. 
   Agora, estamos estudando, aprendendo e planejando como manter nosso trabalho em outro espaço: o virtual. Sofremos novos tipos de "insalubridade". A falta do contato físico, falta de encontros, a alta exposição a telas, que causa vista cansada e dor de cabeça. Eu sou da geração conservadora, dos que preferem a aula presencial e sentem muito a falta dela. Tenho colegas mais jovens, que já estão mais preparados para o ensino à distância. Alguns já o praticavam e acham bastante natural a adaptação. Pra mim, é difícil. Mas, vamos enfrentar e adaptar o que é possível. Porque, a busca e cultivo do conhecimento precisa continuar. Somos agentes nesta engrenagem, que precisa voltar a funcionar, mesmo a distância. 
   Na última semana, uma notícia me entristeceu grandemente: o Coro Sinfônico Comunitário da UnB encerrou suas atividades. Uma página da história da música de concerto na UnB, que se fecha. Um movimento a menos no minhocão, quando ele voltar a ser habitado. 
   O minhocão ainda vai ficar vazio por algum tempo. Mas, se Deus quiser, em breve a gente volta a andar por ele. Eu tenho esperança.
Traseamus... 
Cantemos... 

domingo, 6 de outubro de 2019

Mais 10 filmes sobre Canto (sobre Música...)



     O texto 10 Filmes sobre canto (clique pra ler, se quiser), que publiquei em 16 de julho de 2011, é um dos mais lidos do sobreCanto – mais de 700 visualizações até hoje. Eu o escrevi há 8 anos, para meus alunos em férias, querendo que aproveitassem o tempo vago de forma útil. Cinema é uma ótima ferramenta de informação e formação. Para estudantes de canto erudito – estes jovens ETs  – ver um filme, às vezes, pode abrir horizontes, despertar curiosidade sobre um tema... e ajudar a compreender melhor o vasto universo da música erudita e do canto lírico. Mas, percebi que o texto alcançou outras pessoas além dos meus queridos pupilos. Como a lista é pequena, resolvi então complementá-la com outra lista de 10. Só que fica cada vez mais difícil que eles sejam só sobre canto. Na verdade, são sobre música.
      E não posso mais dizer para irem a uma locadora procurá-los, porque não existem mais locadoras! Estamos na fase do filme digital. Procurem nos aplicativos como NetFlix ou canais de TV por assinatura, preferencialmente, os que oferecem filmes "cult", ou filmes de arte. Sorte dos que tiverem amigos colecionadores de DVDs e Blue-ray, que talvez possam emprestar. E ainda há a opção de adquirir pela internet.

        Então vamos lá aos outros 10 filmes sobre música:

1 - A noviça rebelde (The sound of music, 1965) - Adaptação para o cinema de um musical que fez muito sucesso nos palcos dos anos 60, sobre uma família austríaca que aprende a cantar, enfrentando o nazismo, na 2ª guerra. Destaque para a maravilhosa Julie Andrews. Muitas canções lindas, que se tornaram clássicos...

2 - Minha amada imortal (Immortal beloved, 1994) - uma ficção sobre um suposto amor de Ludwig van Beethoven, para quem ele haveria deixado uma herança.

3 - O segredo de Beethoven (Copying Beethoven, 2006) - outra ficção sobre Beethoven e seu  relacionamento com uma amanuense (copista), que o teria ajudado nos últimos anos de surdez e com a Nona Sinfonia.

4 - Música do coração (Music of the heart, 1999) - Filme lindo sobre uma professora de violino (Meryl Streep) e um projeto com alunos carentes no Harlem.

5 - O som do coração (August Rush, 2007) - Fantástica ficção sobre um menino, gênio musical, filho de dois músicos, criado como orfão e descoberto depois pela Juliard. Preparem os lenços...

6 - Adorável professor (Mr. Holand's opus, 1995) - excelente filme para refletir sobre o ensino da música, recomendado a educadores musicais e estudantes de licenciatura em música. Conta a história de um professor de música de um colégio tradicional no EUA e a relação entre seus ideais musicais e a dura realidade.

7 - Fantasia, 1940 - O mais antigo deste post, foi feito ainda pelo Walt Dysney em pessoa. Vale muito à pena ver as maravilhosas animações feitas para grandes obras orquestrais. O Fantasia 2000 (1999) é muito bom também. Mas, na minha opinião, não conseguiu superar o sucesso do seu ancestral da década de 40, quando os desenhos ainda eram feitos à mão.

8 - Villa-Lobos, uma vida de paixão, 2000 - sobre a vida do nosso maior compositor. É uma boa produção do cinema nacional. A trilha sonora foi gravada pelo coro e orquestra do Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Eu tive o privilégio de participar deste projeto, pois cantava no coro do TMRJ nesta época. Então, minha voz está lá, no Chorus 10 e no Noneto, que se ouve no fundo de algumas cenas... 

9 - Callas Forever, 2002 - uma ficção de Franco Zeffireli, sobre os anos finais da  maior Diva do século XX. Já em decadência, ela interpreta Carmen numa produção da ópera para a TV.

10 - O quarteto (The quartet, 2012) - gostosíssima comédia sobre quatro cantores, que na velhice se encontram num asilo e tentam remontar o quarteto do Rigoletto. Os amores e rivalidades antigas vem à tona...

       Eu comecei este texto há 3 anos... e o editei várias vezes. Espero que seja útil ou interessante para você que o achou. Sou uma amante da Sétima Arte e uma serva da Primeira. As duas se encontram e se relacionam de várias maneiras... e, de certa forma, se completam. 
        Viva o cinema!
        Viva a música!
        Cantemos... 









quinta-feira, 19 de setembro de 2019

Brasília, um recomeço...

Tanto tempo sem escrever!
Tentei várias vezes voltar ... Cheguei a iniciar alguns textos, mas não consegui publicar nenhum. A mudança radical de vida, de status, cidade, estado civil ... (tantas!), de alguma forma, me dificultou a expressão escrita, que já me foi tão fácil. 
Então recomeço, contando um pouco do que que vi e vivi, neste tempo de ausência no sobreCanto.
Deus me deu um novo tempo.  
Tempo de retorno a Brasília, meu porto seguro... sem mar.
Tempo de ficar perto da família, pais, filhos e, agora, netos.
Tempo de recomeços, redescobertas e novas definições.
Alguém comentou aqui no sobreCanto "por onde você anda, Malú?". 
Bem, estou em Brasília. Voltei "pra casa", a cidade onde estão minhas referências, meus amigos.
 Cidade que conheço como nenhuma outra (tirando Águas Claras, onde sempre me perco... rs). Morei em Brasília ainda criança, no inicio dos anos 70. Depois vim novamente, em 79, adolescente. Aqui, comecei a namorar o homem que se tornou meu marido. Aqui casei e tive meus dois filhos. Aqui decidi me dedicar à música e ao canto. Estudei na UnB, onde me formei em Licenciatura em Música e Bacharelado em Canto. Meus professores de referência foram daqui, desta época. Lecionei 11 anos na Escola de Música de Brasília. Morei no Guará, Asa Sul e Asa Norte, em nove apartamentos diferentes. Juntando tudo, tenho 27 anos em Brasília. Saí e voltei várias vezes, em épocas diferentes. Presenciei várias fases da cidade, desde os espaços vazios de terra vermelha dos anos 70 até esta Brasília cheia e mais complicada, com engarrafamentos... O parque mudava de nome a cada mudança! De vez em quando ainda vem o nome Piton Farias na cabeça...
Por isso tudo, numa situação nova, inesperada, não havia lugar melhor para estar, do que Brasília. E não foi fácil ficar... muita luta, até judicial. Mas, Deus, que é sempre bom, meu justo juiz, pleiteou a minha causa. Restaurou minha vida profissional, e ... quem diria, estou lecionando na UnB, onde me formei há mais de 25 anos. Parecia impossível. Mas, pra ELE... nada é impossível. Estou lá, ensinando nas mesmas salas onde aprendi tanto! Como se estivesse retribuindo o que recebi... 
Nada é permanente nesta vida... definitivo mesmo, só a outra casa que tenho na cidade eterna. Mas, por enquanto, Brasília é o meu lar, o meu chão. Fico aqui. 
Estou feliz. 
Graças a Deus. 


(Texto iniciado em 2017... editado várias vezes. Só consegui publicar agora, setembro de 2019)