Malú Mestrinho

Apresentação

Olá!
Este é meu blog pessoal.

Aqui pretendo comentar sobre coisas que vi, ouvi e vivi.
Gosto de escrever e às vezes sinto um impulso de compartilhar... Como não sei exatamento com quem, resolvi criar este espaço e deixar que pessoas acessem e leiam quando quiserem.
Pretendo também escrever e trocar idéias sobre a arte do canto. Mais especificamente do canto que interpreta a música chamada erudita.

Malú Mestrinho
(em julho/2010)


sábado, 20 de maio de 2017

MARIA

Encontrei este poema que escrevi em 2015 para o Concerto MUSAS, retratando a mulher da canção "Olha Maria". Não o usamos... o programa já estava longo.
O nome Maria sozinho é lindo. Era o nome da minha avó materna. Eu também sou Maria, como muitas na família. Apelidei a minha filha carinhosamente de Maria, apesar de ela não ter Maria no nome. Mas é a minha Maria preferida...
No MUSAS, Maria sintetizava o nome da mulher brasileira. Somos todas Marias.


MARIA
"Buste de jeune femme" (Picasso 1926)
Salve Maria
Maria da Graça
Maria que passa
O dia a passar...
Maria da Penha
Maria do Beco
Maria da porta
Da janela, do portão

Ave Maria
Maria que reza
Maria que ora
Que chora e que ri
Maria que espera
O dia que não chega

Maria esperando 
O príncipe encantado
A volta do filho
O emprego decente
A noite do baile
O carinho de alguém

Maria se abraça
Aperta o seu colo
Soluça baixinho
Maria não grita
Só cala o desdém

A doce Maria
Que tanto esperou
Rezou, orou
Chorou e calou
Também se cansou
Cansou de esperar

O dia não veio.
E agora, Maria?
Com tanta vontade
De fazer-se alguém
De ser mais mulher
De ser mais feliz
Decide ir embora
Pois, se o dia não chega
Maria percebe
Que tem que mudar

E lá vai Maria
Caminha depressa
Olhando pra frente
Visando o futuro
Pra ser diferente

O teu dia, Maria
Nasce agora
Encontrarás força
E farás o teu dia
Construindo a cada manhã
Um futuro melhor

Alegra-te Maria!
Segue adiante
Sabendo que há muitas
Marias como tu
Somos todas Marias
Maria 
Mulher


sexta-feira, 31 de março de 2017

Madrigal Ars Femina

       Grupos vocais femininos tem sido uma constante na minha vida. Acho que Deus me escolheu para trabalhar com vozes femininas, o que me fez aprender bastante e tem me dado muita alegria. 
       Tive oportunidade de trabalhar com vários grupos. Os três principais, foram em lugares e épocas diferentes. O primeiro foi o Kálamo, nos anos 90, na Igreja Memorial Batista de Brasília. Éramos sete cantoras, de duas famílias muito amigas (Sylvestre e Santos). Cantamos juntas durante uns cinco anos. Eu era recém-formada na UnB, nossos ensaios eram na minha casa e lembro que era difícil manter uma disciplina, porque éramos jovens, amigas/irmãs demais... e como fazê-las me respeitarem (rs...)? Foi um grupo muito bom, que deixou história. De vez em quando, nos encontramos e lembramos com saudades das canções e planejamos nos juntar pra cantar de novo.
        Depois veio o Maria Bonita, que antes de ser Maria Bonita, foi o Grupo Vocal Feminino da UFMS. Muito diferente do Kálamo, foi um projeto de extensão que eu criei na UFMS (Campo Grande - MS). Eram alunas minhas que gostavam de cantar e... bem, há dois artigos sobre este grupo aqui no sobreCanto. Então, quem quiser saber mais, pode ler em: Grupo Vocal Feminino da UFMS e/ou  Maria Bonita. O "Maria" foi uma experiência muito boa pra mim. Nos tornamos amigas e tenho muita saudade do trabalho, do grupo e das cantoras.
       O último grupo foi o Madrigal Ars Femina, que dirigi nos últimos 3 anos, na UFCG, em Campina Grande - PB. Eu ouvi o nome "Ars Femina" em Brasília, nos anos 90... era um coro feminino da Escola de Música, regido pelo Maestro Marco Aurélio Coutinho. Achei o nome fantástico! Na época eu dirigia o Kálamo e pensei, "se um dia eu tiver um coro feminino, vou colocar este nome". Nunca cheguei a ter um coro feminino e na verdade, não sou uma regente e sim uma cantora. Por isso, estes três grupos, eu dirigi de forma participativa: cantando com elas. Tentei colocar este nome no grupo da UFMS, mas fui democrática demais e as meninas não gostaram dele... acharam muito complicado. Desta última vez, não dei opção, este seria o nome e ponto final. Funcionou, mesmo com as pessoas pronunciando errado de vez em quando... rs. As cantoras paraibanas, ao contrário das sul-mato-grossenses, gostaram de ter um nome diferente, em latim, que tinha que ser explicado. Típico da personalidade nordestina, elas gostam de chamar atenção e de ser diferente. Ou, na linguagem delas... de "se amostrar".
       O Madrigal Ars Femina surgiu da classe de Canto Coral da Graduação em Música da UFCG, em 2014, que tinha apenas 10 moças, contra 30 rapazes. Resolvemos dividir em duas turmas, pela impossibilidade de equilibrar os naipes. Começamos ensaiando a Messe Basse de G. Fauré, pois, como eu disse, nordestino não quer saber de coisa simples não... fomos logo pra um repertório elaborado, romântico, que exige muita técnica. E já nascemos com a apresentação marcada: em dois meses estreamos no Concerto da Paixão, no Mosteiro Santa Clara. A partir daí, o grupo cresceu tecnicamente e continuamos aceitando desafios, como cantar obras modernas e exigentes, passando pela estréia brasileira do Magnificat de um compositor contemporâneo holandês. Os ensaios eram dentro da aula de canto coral, mas ficávamos uma hora a mais, porque nossos planos eram altos. Trabalhamos bastante e fizemos muita música boa, da renascença à MPB. O projeto MUSAS, talvez tenha sido o ponto alto de tudo que fizemos (leia sobre em Concerto MUSAS). Nem todas as cantoras eram estudantes de canto, mas conseguimos um resultado sonoro muito bom. Passamos por formações diferentes, como sempre acontece com projetos ligados a uma disciplina acadêmica. Mas algumas cantoras permaneceram, independente de serem alunas ou não.
       Eu me despedi do Madrigal Ars Femina cantando com elas A Ceremony of Carols de B. Britten, em Brasília, em novembro de 2016. Esta viagem foi um projeto sonhado e suado, que, graças a Deus, conseguimos realizar. E foi um sucesso. Cantamos a obra na sua formação original: vozes femininas e harpa, com a excelente harpista Cristina Carvalho. O concerto foi junto com o coro Cantus Firmus Infanto-juvenil, e regido pela Maestrina Isabela Sekeff. Momento difícil pra mim... eu havia perdido meu marido há pouco mais de duas semanas. Este último compromisso do Ars Femina, me obrigou a reagir em vez de me recolher. Foi bom. Difícil, mas muito bom. Vivenciei, como nunca, a verdade de que cantar é terapêutico. Durante estes dias em Brasília, ensaiamos, fizemos o concerto, passeamos, conversamos, choramos e rimos muito juntas. Mas, tivemos que nos separar. Elas voltaram para Campina Grande e eu fiquei em Brasília. 
       Para mim, foi um privilégio dirigir o Madrigal Ars Femina, conviver e cantar com estas cantoras paraibanas lindas. É claro que nem tudo foi fácil, tivemos várias dificuldades, mas o saldo foi super positivo. 
       A tragetória do Madrigal Ars Femina foi a mais curta destes grupos que mencionei. Mas, não posso negar, que, por sua intensidade e seriedade (imposta pelo ambiente acadêmico ao qual estava ligado), foi o grupo que mais se desenvolveu tecnicamente e musicalmente e, por isso, o que me trouxe mais gratificação. Saudades? Atrozes e excruciantes... 
       Queridas cantoras do Madrigal Ars Femina, obrigada pela parceria destes três anos. Obrigada por trabalharem e cantarem comigo. Obrigada pelo carinho, pela compreensão e por este abraço tão gostoso e inesquecível. 
       Somos todas Marias
       Somos todas MUSAS
       Somos todas cantoras
       "Somos todas sopranos" (piada interna)
       Transeamus

       Um xero, 

       Malú












quarta-feira, 20 de julho de 2016

Zéllo Visconti - um canteiro de cores

     Zéllo Visconti é um artista plástico carioca, que já foi brasiliense e agora é paraibano. Seus quadros são super coloridos, com um estilo bem próprio, usando uma técnica mista, que inclui colagem de elementos inusitados como retalhos de pano e guardanapos de papel (!!!). Na verdade, Zéllo faz arte com tudo ou qualquer coisa. O que cair e couber na mão ... "se colar, colou". Sua arte transcende as telas, porque seu olhar estético cria à sua volta um ambiente igualmente colorido, artístico e criativo, desde a roupa que veste à decoração da sua casa, que mistura diferentes estilos e materiais, numa combinação que em qualquer outro lugar ficaria estranhíssimo... Mas, na casa do Zéllo fica lindo e de bom gosto. Eu, que sou chegada a cores pastéis e objetos simples, olho,  às vezes, meio assustada para aquela parafernália de elementos e cores, tentando entender como pode ficar tão adequado um objeto de plástico roxo ao lado de uma estrutura de metal vermelho, ou de cerâmica amarela. Coisas que aparentemente não combinam entre si, se harmonizam quando passam pelas mãos deste artista. Demorei a me acostumar com a estética multicolorida, pop-tropicalista do Zéllo. Na verdade, tive que aprender a gostar. Hoje, a arte do Zéllo me encanta. Por isso, resolvi falar sobre ela aqui.
     Zéllo Visconti é meu amigo. Eu o conheci em Brasília há 30 anos, quando ele era colega do Josué Jr. (meu marido) no Conjunto Cultural da CAIXA. A sala de trabalho dele era um verdadeiro atelier, não se parecia em nada com um ambiente bancário. Ele me chamou a atenção com seu jeito meio louco de ser, super alegre e brincalhão, daqueles que é difícil saber quando está brincando ou falando sério. Na verdade, dificilmente ele fala sério... Nesta época, ele nos presenteou com uma tela dele da série "Querubíndios". Tenho uma lembrança bem especial dele, quando eu pedi demissão da Caixa Econômica Federal. (Sim, eu passei num concurso da Caixa, em 1989, e trabalhei na Assessoria de Comunicação Social da Presidência, na Matriz. Mas... só aguentei 4 meses). Eu tinha acabado de me formar em Música na UnB, cheia de ideais artístico-musicais e tinha 2 filhos pequenos. Aquela burocracia me enlouquecia. Por mais que o salário fosse bom, eu sentia que estava no lugar errado. Queria estudar, cantar, conviver com meus filhos e não ficar 6 horas por dia digitando textos. Todo mundo me criticou, e muitos me aconselharam a não sair da empresa. "Imagina, perder um emprego como aquele." Zéllo foi o único que reagiu diferente. Quando contei para ele, no corredor da Matriz, que estava pedindo demissão, ele me deu um abraço e disse: "Parabéns, é a melhor coisa que você faz."
Zéllo e sua obra "Fluindo sentimentos" quebrando os tons pastéis da nossa sala.
     Zéllo mora em João Pessoa há 5 anos e eu vim para Campina Grande há quase 3 anos. Nos reencontramos de forma inesperada em Areia/PB, num festival da cidade, onde fui cantar e ele estava expondo e dando uma oficina. Conversamos a noite inteira e, no dia seguinte, ele nos deu uma tela chamada "Fluindo sentimentos", marcando nosso reencontro. Desde então, aproveitamos a proximidade e nos encontramos sempre que possível.
     Eu teria muitas histórias pra contar do Zéllo, mas o texto ficaria muito longo... 
     Vou contar apenas a feliz surpresa de um fim de semana deste mês de julho. Aproveitamos a ocasião de um evento na Pousada Oásis Tajajá (em Conde/PB), no qual ele faria uma tela ao vivo e fomos antes a João Pessoa prestigiar a sua exposição, "Canteiro de Cores", no Centro Cultural São Francisco. Passeei pelo Canteiro do Zéllo, e várias telas me encantaram. Mas uma em especial, "Ideias flutuantes", me chamou a atenção, me cativou. Eu disse a ele que aquela era a peça que mais gostei na exposição. Conversamos sobre ela. Tinha um movimento de leveza; duas plumas multicoloridas, que pairavam flutuando, uma sobre a outra. Ou seriam pássaros...?
     No dia seguinte, no evento, o quadro feito ao vivo seria sorteado entre os presentes. Acompanhei atenta o trabalho do amigo/artista tentando entender o que o movia e em que direção iria. O processo criativo de invenção e improvisação me impressionou. Pronta a obra, fiquei olhando para ela, precisando me acostumar com a mistura de cores e formas, na busca que sempre tenho (tradicional que sou) de encontrar um significado. Ao contrário de "Ideias flutuantes", o novo quadro não me falou muito. Zéllo, sensível como qualquer artista, percebeu isso. No final do evento, tivemos a surpresa de sermos nós os sorteados com a tela. Ficamos muito felizes e quase em estado de choque, pela surpresa. Depois da entrega, fotos e comemorações, o sensível artista e amigo Zéllo veio conversar conosco. Ele resolveu trocar os quadros (!!!). Queria que o quadro novo ficasse na casa do evento, onde a obra fora criada. Como tínhamos sido sorteados, ele nos daria o quadro da exposição que me encantou. Quase chorei... 
"Ideias Flutuantes"
     Às vezes, acho que Deus me mima. Me dá coisas que sabe que eu gosto, por pura graça. Pois, naquela noite, fui objeto da graça de Deus, ganhando uma obra de arte. Um quadro que  vi numa exposição, admirei, desejei, compreendi (a meu modo) e que seria comprado e levado por outra pessoa. Mas, fui agraciada também com a amizade de um artista generoso, que resolveu me dar este quadro preferido no lugar do que foi sorteado.
     Zéllo Visconti é um artista plástico...
     Zéllo Visconti é meu amigo... 
     "Ideias flutuantes" pairam hoje na parede da minha casa.

     Graças a Deus! 
    

quarta-feira, 8 de junho de 2016

Sobre cantores de igreja

     Há algum tempo escrevi no Facebook sobre os cantores das igrejas cristãs/evangélicas e fiquei devendo desenvolver melhor o assunto aqui no sobreCanto. Aí está:

cantarei com o espírito, mas também cantarei com o entendimento.
1 Coríntios 14:15
cantarei com o espírito, mas também cantarei com o entendimento.
1 Coríntios 14:15
cantarei com o espírito, mas também cantarei com o entendimento.
1 Coríntios 14:15
cantarei com o espírito, mas também cantarei com o entendimento.
1 Coríntios 14:15
"...cantarei com o espírito, mas também cantarei com o entendimento."
1 Coríntios 14:15

     Preocupo-me com a voz dos nossos jovens que cantam nas chamadas "equipes de louvor". Vejo nas igrejas que frequento pessoas usando muito mal a voz! Só de olhar, já se percebe pela postura que há muita tensão na região da laringe. Pescoços esticados e tensos, timbres esganiçados, muito sopro (vazamento de ar) e ataques de glote são frequentes. Claro que não se vai exigir fraseado e legato neste estilo de canto... mas, falo da qualidade de som que evidencia o mau uso da voz.
   Nos últimos anos, tenho tido repetidamente alunos com problemas nas pregas vocais. Nódulos, fendas, cansaço vocal recorrente ... e infelizmente, tenho que dizer que trata-se de cantores/vocalistas de igrejas evangélicas. Há alunos que desmarcam a aula porque ficaram roucos, por cantarem na igreja no fim de semana. Chega ao cúmulo de não quererem fazer aula no início da semana, só de 4ª feira em diante, porque no início da semana estão sempre roucos! É uma situação lamentável. E pergunto: que canto de louvor é este, que provoca perda de saúde na voz dos cantores?
     Os líderes devem prestar atenção nisso. O cristianismo em sua essência preocupa-se com o homem integralmente. Corpo e alma. Não é justo que as vozes dos nossos jovens se estraguem! E eles fazem isso achando que estão louvando, servindo a Deus. E talvez estejam em seus corações e Deus aceite por misericórdia. Mas, isto não está certo, não há bênção nesta prática. Se há cantores cantando mal (com uma postura nociva ao seu aparelho), é por falta de orientação. Então, a liderança deve procurar um profissional que possa orientá-los. Se não querem mais corais (que pena), tudo bem... Mas, então, que aprendam a cantar! Deus quer e merece ser louvado com a melhor voz. É este o significado de "tocai bem", ou "tangei com arte" no Salmo 33:3. Voz cantada é instrumento musical e para usar bem, tem que aprender como usar. Infelizmente, não é isso que temos visto nos cultos da maioria de nossas igrejas. 
     Nossos jovens cantam imitando péssimos exemplos: os cantores "gospel" (Deus nos perdoe por relacionar o nome do evangelho a um tipo de música tão baixo). Por causa da decadência da música em nossas igrejas e por falta de orientação, o referencial deles são os CDs, a música comercial com roupagem de "sacra". E nosso povo consome esta música sem perceber que é um produto da indústria fonográfica, cujo objetivo é simplesmente ganhar dinheiro. Por isso, a música é muito simples, boba e repetitiva. Porque tem que "pegar", ser aprendida com facilidade e vender. Ora, se o objetivo é vender, passa longe a preocupação com a saúde vocal dos intérpretes. E o sistema dá certo: os CDs com esta música boba e simples, muitas vezes mal cantada, vende muito e toca bastante nas rádios. Ato contínuo, esta música vira repertório das "equipes de louvor" e passa a ser cantada nos cultos das igrejas. E os jovens cantores das nossas igrejas cantam imitando estes cantores, claro. 

     Bem, como não se deve fazer crítica, sem apontar uma solução, coloco aqui algumas sugestões para os cantores e backing vocals das igrejas:

1 - Façam uma preparação vocal antes de cantar. Usem consoantes vibrantes (rrrrr, zzzzz, jjjjj...) subindo e descendo e vocalizes. Relaxem os músculos do ombro e pescoço ao cantar. Se perceber que está tenso, está errado. Fica rouco quando acaba o culto? Está errado, pare tudo. Vá estudar canto.  

2 - Quando você canta, sua voz se torna um instrumento musical e você deve saber como usar, tem que estudar para aprender. Por exemplo, você não sabe como fazer o que escrevi no nº 1? Então, procure um professor de canto, ou preparador vocal para trabalhar com seu grupo. De preferência, alguém que estudou bastante num bom curso de música. Converse com ele: quantos anos estudou, com quem, aonde? Se é uma pessoa que só canta "bonito", isso não a habilita a orientar vozes!

3 - Parem de esticar o pescoço para cantar! Toda a musculatura em volta da laringe (ombros, pescoço, mandíbula e língua) devem estar relaxados para cantar. Os músculos que exercem pressão para que o canto aconteça são abdominais, relacionados à produção do ar e não à própria fonação. Técnica vocal está intimamente relacionada com a maneira de usar os músculos. Exercícios de alongamento e relaxamento fazem parte de um bom preparo vocal. (Se o professor que você vai chamar no ítem 2 não faz isso, desconfie dele...).

4 - Cuidado com os golpes de entrada em cada frase (em cada palavra, ou sílaba às vezes), que vocês copiam dos cantores "gospel". Estou falando daquela "voltinha", que parece um "gemidinho" que fazem em cada entrada. Isso provoca um esforço grande das suas pregas vocais. Talvez sua laringe não esteja preparada para este esforço todo! Enquanto você é jovem, ela (sua laringe) vai aguentar, mas cada vez vai ficar mais difícil. O mau uso vai cobrar um preço alto. Cantar não é gemer! E "cordas vocais" não estão à venda na loja de música.

5 - Imitar a voz da mídia, dos cantores dos CDs, não é sinônimo de cantar bem!!! Muitos cantores cantam muito mal e vendem assim mesmo. (Já expliquei porque acima). Preste atenção na SONORIDADE do seu "ídolo gospel". Como é este som? É soproso, vaza ar? Ele parece fazer esforço para cantar? Caretas e pescoço tenso? Então, me desculpe, mas ele canta mal.
 
6 - Se você canta na igreja e se identificou com o que mencionei acima, fica rouco toda vez que canta num culto, não menospreze estes sintomas. Brevemente, infelizmente, você poderá ter um problema grave, que pode acarretar até na perda da sua voz. E não pense que você tem que cantar assim, porque é isso que Deus quer de você. NÃO É NÃO!!! DEUS NÃO QUER QUE VOCÊ ACABE COM SUA VOZ PARA LOUVÁ-LO! Antes, ELE quer que você seja bom mordomo do que ELE lhe deu: sua voz. Quer que você cuide dela e saiba usá-la com sabedoria. Se você não concorda com isso, precisa orar mais e estudar melhor a Bíblia. E entender o que é mordomia do seu corpo, que é o Templo do Espírito Santo. 

7 - Líderes de música e adoração, preocupem-se com a qualidade vocal dos seus cantores. Quando forem chamar alguém para falar sobre canto nos seus congressos e encontros não chamem o que vende CD. Chame alguém que estudou canto, de preferência numa universidade, que conheça bem técnica vocal para o canto. (Fonoaudiólogo estudou para cuidar de voz falada. São raríssimos os que entendem de voz cantada. Quem entende de canto é um professor de canto).

     Espero que este texto sirva de alerta e ajude as pessoas da área. Estou a disposição para debater e/ou esclarecer qualquer ponto abordado aqui.
     Sinto muito se fui dura. Mas, este é o meu papel. Não posso me calar assistindo a decadência vocal dos jovens cantores cristãos. 

Cantemos!
(mas cantemos bem...)

domingo, 6 de março de 2016

Harnoncourt, o Barroco, e eu


  
A morte de Nikolaus Harnoncourt hoje, 06 de março de 2016, me fez pensar e lembrar de coisas interessantes. Constatei que este maestro austríaco teve grande influência na minha maneira de fazer e pensar a música. Por ter sido um grande artista, seu trabalho foi divulgado e publicado até chegar a mim, uma estudante universitária de música dos anos 80, no Brasil. As idéias de Harnoncourt e sua maneira de interpretar a música histórica foram e são fundamentais no meu trabalho. Já mencionei isso para meus alunos, mas achei por bem registrar hoje aqui.
     A primeira vez que vi um trabalho dele foi assistindo uma ópera na casa do meu professor Zuinglio Faustini, acho que era o Orfeo de Monteverdi. Zuinglio tinha comprado um VHS (ou um "laserdisc") da ópera em uma de suas viagens e estava triunfante ao perceber que os cantores usavam sua voz "inteira", com profundidade e vibrato, ao contrário de uma visão (que ele detestava) de que a música barroca tinha que ser cantada com a voz "reta", sem vibrato.
Maestro Gerald Kegelmann
   Em 1985, veio a Brasília o maestro Gerald Kegelmann, amigo de Claudio Santoro, que regia a Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional. Kegelmann preparou e regeu a Missa em Si Menor de J. S. Bach. Eu estava no coro. Lembro que foi em 1985, porque eu estava grávida da minha 1ª filha e ele abriu exceção para que eu me sentasse nas partes que o coro não cantava durante o concerto. A preparação desta Missa foi um verdadeiro curso de interpretação do Barroco para nós que tivemos o privilégio de cantar com ele. Me apaixonei pela Missa, pela tonalidade de Si menor e profundamente por Bach. Os ensaios eram pela manhã na Escola de Música de Brasília. À tarde, durante duas semanas, ele deu um curso de extensão sobre o Oratório de Natal de Bach na UnB. Era voltado para a análise da obra, fraseado e micro articulações do Barroco. No final da aula, ele ouvia e orientava os cantores que quisessem estudar alguma ária do oratório. Estudei a ária Bereite dich Zion e esta parte do curso foi a mais proveitosa pra mim. Kegelmann era um discípulo da "escola" de Harnoncourt na Alemanha. Ele expôs (para mim, pela 1ª vez) a visão da "interpretação historicamente informada". Um mundo novo se abriu com os ensinamentos de Harnoncourt que o dedicado maestro trouxe. 
     A partir daí, passei a ouvir e cantar a música barroca de outra maneira e busquei ouvir as gravações e assistir as óperas de Harnoncourt. Tive uma crise entre a voz redonda com muito legato que Zuinglio Faustini desenvolveu em mim, e a voz leve que as coloraturas das árias barrocas exigiam. Aos poucos consegui equilibrar as duas maneiras de cantar e aprendi a usá-las de acordo com o repertório. 
     Quando trabalhei no Theatro Municipal do Rio, fui solista num Magnificat de Bach, um concerto lindo, com ballet. O maestro Alessandro Sangiorgi, que regeu,  percebeu que eu dividia as articulação das frases e perguntou se eu tinha estudado na Europa. "Não maestro, um europeu veio a Brasília e eu aprendi aqui mesmo".
     Kegelmann voltou a Brasília outras vezes, nos Cursos de Verão da Escola de Música de Brasília. Cantei mais uma vez num coro regido por ele, num destes cursos, e tive o privilégio ser solista da Cantata nº 12 de Bach, "Weinen, Kleigen, Sorgen, Zagen", que ele regeu, em 2001.
     Na especialização que fiz na UnB (2002), "O discurso dos sons" foi mencionado como algo básico a ser lido, foi quando o li e entendi de forma sistematizada o que eu aprendera na prática. Lembro que relia passagens, grifava, anotava. Nesta época, cantei com Luciana Tavares o Stabat Mater de Pergolesi, no Festival de Música de Pirenópolis, regido pelo Alessandro Santoro. Foi numa igreja antiga com teto de madeira, com instrumentos de época, que resultou numa sonoridade muito especial. Foi quando percebi a diferença brutal no fraseado e articulação que estes instrumentos faziam. Depois disso, trabalhei várias vezes com músicos da área da música antiga na Escola de Música de Brasília, cantando música barroca, com instrumentos de época. Um privilégio, que hoje, estando longe de lá, reconheço.
     Na verdade, sei pouco sobre Harnoncourt. Mas falo do que aprendi ouvindo seus concertos, lendo o que ele escreveu e cantando com músicos que também tiveram a influência dele. Hoje, ensinando jovens cantores universitários, percebo a importância desta vivência e aprendizado que tive.
 
     Recomendo o artigo Inversão de valores num mundo materialista, de 2013, sobre as idéias de Harnoncourt no Blog "Falando de Música", do Maestro Osvaldo Colarusso.
      E por último, coloco aqui o maravilhoso Orfeo de Monteverdi na concepção de Harnoncourt, que conseguiu como ninguém equilibrar a leveza do Barroco com a intensidade dramática da ópera. 


     Harnoncourt se foi, mas a música que ele fez nos ficou de herança. Graças a Deus.